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BEM-VINDO AO JOGO
Dominação/submissão e autoconhecimento - Parte 1
Dom Felix

"....O medo de amar é não arriscar
esperando que façam por nós
o que é nosso dever:
recusar o poder..."
[Beto Guedes]

      No BDSM, não negamos nossas fantasias; lidamos com elas. Para isto, utilizamos algumas práticas físicas e psicológicas que certamente são incomuns, intensas e que podem até causar danos, se forem mal-conduzidas.
        BDSM - Bondage, ou amarração, Dominação/submissão e Sadomasoquismo, ou SM - não é, portanto, apenas deixar o inconsciente agir. Uma relação só é BDSM se for SSC: Sã, Segura e Consensual. E se, no fim das contas, for capaz de transformar até a dor em prazer.
        Normalmente, quando seguimos estes princípios, começamos a conhecer não só técnicas; mas também a conhecer-nos melhor. Neste sentido, a relação de Dominação e Submissão, ou D/s, é uma das práticas mais estimulantes do BDSM.


        D/s e relações de poder

        No BDSM, em grande parte, lidamos com a energia erótica através do psicológico. No caso do D/s, poderíamos dizer que lidamos, principalmente, com as relações de poder. Em especial, aquelas que se estabelecem em torno do gênero - dos papéis socialmente determinados para homem e mulher.
        No D/s, se estabelecem duas polaridades: Dominador e Submisso. São polaridades arquetípicas, talvez com raízes muito primitivas, situadas ainda em nosso passado selvagem. Por isso mesmo, talvez, sejam tão carregadas de conteúdo erótico.
        De um lado, temos o(a) submisso(a): aquele que deseja a entrega. Ele concede poder sobre si e, estabelecendo seus limites, se coloca à disposição para ser subjugado. Do outro, temos aquele que deseja o poder que o submisso cede: o(a) Dominador(a) que, subjugando, obtém prazer.
        Apesar do que as palavras Dominador e submisso possam sugerir, não há superioridade real entre as partes: servir não é simples, porque exige desprendimento; e também não é simples dominar, porque é preciso respeito real pelo outro.
        Há portanto, neste encontro, uma troca. Talvez possamos dizer que o submisso, procurando o prazer, manobra no imaginário e ações do Dominador: espertamente, enquanto brinca de "ser-cada-vez-menos", cedendo o poder, ele se afirma. Já o Dominador atua no imaginário e ações do submisso - e exercendo o poder que lhe é concedido, procura afirmar-se ao brincar de "ser-cada-vez-mais".
        É divertido pensar nesse brinquedo quando o imaginamos virando de cabeça para baixo as relações de gênero. Uma mulher, por exemplo, poderá dominar um homem que implora pelo papel no qual ela foi historicamente encarcerada, o de submissa; já outra pode também brincar, mas de forma oposta e sutil, com esse mesmo papel, oferecendo voluntariamente a coleira para um homem dominá-la explicitamente. Para o homem e para a mulher, as combinações possíveis podem ser variadas, surpreendentes, muitas vezes incompreensíveis - e deliciosas.


       O D/s como jogo

        "Brincar" talvez seja o verbo, portanto, mais adequado para explicar a essência da relação que Dominador e submisso criam entre si. Observando este espaço imaginário e idealmente seguro que é criado, vemos o que a relação D/s é, em essência: um jogo.
        Sendo um jogo, é uma relação que não só proporciona desafio e prazer; mas que também pode contribuir para um maior autoconhecimento. Como acontece com a criança, ao participar de um brinquedo: ela pode "ser" livremente um cachorro, um foguete, o pai, a mãe, homem ou mulher, mocinho ou bandido. Ali, experimentando diferentes personagens, é que ela descobre quem é, ou quer ser.
        Em nossa sociedade, contudo, o jogo tem cada vez menos espaço. Além disso, a lei do mercado, a competição, nos impelem desde a infância a lutarmos todos contra todos. Seremos "vencedores" ou "perdedores"?
        Uma conseqüência disto é que não aprendemos a lidar muito bem, por exemplo, com o poder, seja na vida pessoal como na social. Talvez, por isso mesmo, servir tornou-se há muito tempo pouco mais que um condicionamento diante da opressão, um motivo para ressentimento, revolta e vergonha. Dominar, por outro lado, transformou-se em simples compulsão egoísta, geralmente alimentada pela injustiça.


        Poder e poder aprender

        O jogo de dominação e submissão abre, a partir do erótico, um espaço para vivenciarmos o poder de uma forma diferente, onde o desejo individual pode ter lugar. A mulher feminista, guerreira e nada passiva na vida diária, por exemplo, pode experimentar o que é ser espontaneamente submissa de corpo e alma. Ou poderá, talvez, ensinar ao executivo implacável, egocêntrico e machista o que significa servir por completo... uma mulher. O manso enfrentará a plenitude de receber em suas mãos poder palpável, quase absoluto. E o tirano poderá, quem sabe, conhecer um domínio que é feito de consenso e não de coerção.
        A relação de Dominação/submissão gera, portanto, um contexto onde relações de poder podem ser recriadas, graças ao espaço da fantasia e do jogo. Um jogo que é intenso, porque não há personagens: ali, antegozando o estalar do chicote ou a carícia desarmante, estamos nós mesmos, com nossa dor e nosso prazer, muito reais.
        Através do jogo do D/s podemos, assim, aprender algo real sobre nós mesmos. Principalmente, sobre o poder: ao usá-lo, talvez possamos também aprender a recusá-lo.


(Na próxima parte, uma segunda reflexão sobre D/s, autoconhecimento e uso seguro de mecanismos psicológicos no BDSM).