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"....O medo de amar é não arriscar
esperando que façam por nós
o que é nosso dever:
recusar o poder..."
[Beto Guedes]
No
BDSM, não negamos nossas fantasias; lidamos com
elas. Para isto, utilizamos algumas práticas físicas
e psicológicas que certamente são incomuns, intensas
e que podem até causar danos, se forem mal-conduzidas.
BDSM
- Bondage, ou amarração, Dominação/submissão e Sadomasoquismo,
ou SM - não é, portanto, apenas deixar o inconsciente
agir. Uma relação só é BDSM se for SSC: Sã, Segura
e Consensual. E se, no fim das contas, for capaz
de transformar até a dor em prazer.
Normalmente,
quando seguimos estes princípios, começamos a conhecer
não só técnicas; mas também a conhecer-nos melhor.
Neste sentido, a relação de Dominação e Submissão,
ou D/s, é uma das práticas mais estimulantes do
BDSM.
D/s
e relações de poder
No BDSM,
em grande parte, lidamos com a energia erótica através
do psicológico. No caso do D/s, poderíamos dizer
que lidamos, principalmente, com as relações de
poder. Em especial, aquelas que se estabelecem em
torno do gênero - dos papéis socialmente determinados
para homem e mulher.
No D/s,
se estabelecem duas polaridades: Dominador e Submisso.
São polaridades arquetípicas, talvez com raízes
muito primitivas, situadas ainda em nosso passado
selvagem. Por isso mesmo, talvez, sejam tão carregadas
de conteúdo erótico.
De um
lado, temos o(a) submisso(a): aquele que deseja
a entrega. Ele concede poder sobre si e, estabelecendo
seus limites, se coloca à disposição para ser subjugado.
Do outro, temos aquele que deseja o poder que o
submisso cede: o(a) Dominador(a) que, subjugando,
obtém prazer.
Apesar
do que as palavras Dominador e submisso possam sugerir,
não há superioridade real entre as partes: servir
não é simples, porque exige desprendimento; e também
não é simples dominar, porque é preciso respeito
real pelo outro.
Há portanto,
neste encontro, uma troca. Talvez possamos dizer
que o submisso, procurando o prazer, manobra no
imaginário e ações do Dominador: espertamente, enquanto
brinca de "ser-cada-vez-menos", cedendo o poder,
ele se afirma. Já o Dominador atua no imaginário
e ações do submisso - e exercendo o poder que lhe
é concedido, procura afirmar-se ao brincar de "ser-cada-vez-mais".
É divertido
pensar nesse brinquedo quando o imaginamos virando
de cabeça para baixo as relações de gênero. Uma
mulher, por exemplo, poderá dominar um homem que
implora pelo papel no qual ela foi historicamente
encarcerada, o de submissa; já outra pode também
brincar, mas de forma oposta e sutil, com esse mesmo
papel, oferecendo voluntariamente a coleira para
um homem dominá-la explicitamente. Para o homem
e para a mulher, as combinações possíveis podem
ser variadas, surpreendentes, muitas vezes incompreensíveis
- e deliciosas.
O
D/s como jogo
"Brincar"
talvez seja o verbo, portanto, mais adequado para
explicar a essência da relação que Dominador e submisso
criam entre si. Observando este espaço imaginário
e idealmente seguro que é criado, vemos o que a
relação D/s é, em essência: um jogo.
Sendo
um jogo, é uma relação que não só proporciona desafio
e prazer; mas que também pode contribuir para um
maior autoconhecimento. Como acontece com a criança,
ao participar de um brinquedo: ela pode "ser" livremente
um cachorro, um foguete, o pai, a mãe, homem ou
mulher, mocinho ou bandido. Ali, experimentando
diferentes personagens, é que ela descobre quem
é, ou quer ser.
Em nossa
sociedade, contudo, o jogo tem cada vez menos espaço.
Além disso, a lei do mercado, a competição, nos
impelem desde a infância a lutarmos todos contra
todos. Seremos "vencedores" ou "perdedores"?
Uma conseqüência
disto é que não aprendemos a lidar muito bem, por
exemplo, com o poder, seja na vida pessoal como
na social. Talvez, por isso mesmo, servir tornou-se
há muito tempo pouco mais que um condicionamento
diante da opressão, um motivo para ressentimento,
revolta e vergonha. Dominar, por outro lado, transformou-se
em simples compulsão egoísta, geralmente alimentada
pela injustiça.
Poder
e poder aprender
O jogo
de dominação e submissão abre, a partir do erótico,
um espaço para vivenciarmos o poder de uma forma
diferente, onde o desejo individual pode ter lugar.
A mulher feminista, guerreira e nada passiva na
vida diária, por exemplo, pode experimentar o que
é ser espontaneamente submissa de corpo e alma.
Ou poderá, talvez, ensinar ao executivo implacável,
egocêntrico e machista o que significa servir por
completo... uma mulher. O manso enfrentará a plenitude
de receber em suas mãos poder palpável, quase absoluto.
E o tirano poderá, quem sabe, conhecer um domínio
que é feito de consenso e não de coerção.
A relação
de Dominação/submissão gera, portanto, um contexto
onde relações de poder podem ser recriadas, graças
ao espaço da fantasia e do jogo. Um jogo que é intenso,
porque não há personagens: ali, antegozando o estalar
do chicote ou a carícia desarmante, estamos nós
mesmos, com nossa dor e nosso prazer, muito reais.
Através
do jogo do D/s podemos, assim, aprender algo real
sobre nós mesmos. Principalmente, sobre o poder:
ao usá-lo, talvez possamos também aprender a recusá-lo.
(Na próxima parte, uma segunda reflexão sobre
D/s, autoconhecimento e uso seguro de mecanismos
psicológicos no BDSM).
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