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APROXIMAÇÕES BDSM ÀS REFLEXÕES DE SARTRE
REFERENTES À ATITUDE PARA COM O OUTRO

Parte 1
Skelter

      Lá pelo meio de L'Être et le Néant, Jean-Paul Sartre expõe dois tipo de atitude para com o outro que me fizeram pensar bastante. São indagações filosóficas de um existencialista que, ao menos para mim, tem muito a contribuir no debate que se propõe aqui neste espaço.

      Sartre descreve a primeira das duas possibilidades como sendo o amo, a linguagem, o sadismo. Ele afirma que tudo que vale para mim vale para o outro. Enquanto tento livrar-me do domínio do outro, o outro tenta livrar-se do meu; enquanto procuro subjugar o outro, o outro procura me subjugar. Não se trata, aqui, de modo algum, de relações unilaterais com um objeto-em-si, mas sim de relações recíprocas e moventes. A partir daí ele faz descrições que revelam o eterno conflito de nossa existência.

       Entre as três grandezas que ele propõe como sendo parte desta primeira atitude para com o outro, prefiro destacar somente a do masoquismo - obviamente uma categoria fundante de nossas discussões. Sartre começa esta parte afirmando que quanto mais sou amado, mais perco meu ser, mais sou devolvido às minhas próprias responsabilidades, ao meu próprio poder de ser. Em segundo lugar, o despertar do outro é sempre possível; a qualquer momento ele pode fazer-me comparecer como objeto: daí a perpétua insegurança do amante. Em terceiro lugar, o amor é um absoluto perpetuamente feito relativo pelos outros. Seria necessário estar sozinho no mundo com o amado para que o amor conservasse seu caráter de eixo de referência absoluto. Daí a perpétua vergonha do amante, ou seu orgulho, o que neste caso, dá no mesmo.

       Assim, foi em vão que tentei me perder no objetivo: minha paixão para nada serviu; o outro - seja por si mesmo, seja pelos outros - devolveu-me à minha injustificável subjetividade. Tal constatação, segundo o filósofo francês, pode provocar um desespero total e uma nova tentativa para realizar a assimilação entre o outro e eu. Seu ideal será o inverso daquele que acabamos de descrever: em vez de projetar absorver o outro preservando a sua alteridade, irei projetar ser absorvido pelo outro e perder-me em sua subjetividade para desembaraçar-me da minha. O empreendimento será traduzido no plano concreto pela atitude masoquista.

       O masoquismo, tal como o sadismo, é assunção de culpabilidade. Sou culpado, com efeito, pelo simples fato de que sou objeto. Culpado frente a mim mesmo, posto que consinto em minha alienação absoluta; culpado frente ao outro, pois lhe dou a ocasião de ser culpado, ou seja, de abortar radicalmente minha liberdade enquanto tal. O masoquismo é uma tentativa, não de fascinar o outro por minha subjetividade, mas de fazer com que eu mesmo me fascine por minha objetividade-para-o-outro, ou seja, fazer u me constitua em objeto pelo outro, de tal modo que apreenda não-teticamente minha subjetividade como um nada, em presença do Em-si que represento aos olhos do outro. O masoquismo caracteriza-se como uma espécie de vertigem: não a vertigem ante o precipío precipício de rocha e terra, mas frente ao abismo da subjetividade do outro.

       Mas o masoquismo é e deve ser um fracasso em si mesmo: para fazer-me fascinar por meu eu-objeto seria preciso que eu pudesse realizar a apreensão intuitiva deste objeto tal como é para o outro, o que, por princípio, é impossível. Sartre conclui dizendo que, assim, o eu alienado, longe de que eu possa sequer começar a fascinar-me por ele, permanece, por princípio, inapreensível. Em vão o masoquista arrasta-se de joelhos, mostra-se em posturas ridículas, faz-se utilizar como simples instrumento inanimado; é para o outro que será obsceno ou simplesmente passivo, é para o outro que irá padecer essas posturas; para si, está eternamente condenado a dá-las a si mesmo. Em particular o masoquista que paga a uma mulher que ela o açoite, trata-a como instrumento e, por isso, coloca-se em transcendência em relação a ela. Assim, o masoquista acaba por tratar o outro como objeto e por transcendê-lo rumo à sua própria objetividade.

       O que é interessante, também, é a lembrança de Sartre no finalzinho. Ele utiliza o exemplo de Sacher Masoch, que, para se fazer depreciado, insultado, reduzido a uma posição humilhante, via-se obrigado a utilizar o grande amor que lhe professavam as mulheres, ou seja, a agir sobre elas na medida que elas se experimentavam como objeto para ele. Assim, de qualquer modo, a objetividade do masoquista lhe escapa, e pode até ocorrer, como geralmente ocorre, que, buscando captar sua própria objetividade, ele venha a encontrar a objetividade do outro, o que libera, a despeito de si mesmo, a sua subjetividade.

       O masoquismo é, portanto, para Sartre, por princípio, um fracasso. Isso em nada pode nos surpreender, se pensarmos que o masoquismo é um "vício" e que um vício é, por princípio, o amor do fracasso. Mas Sartre não descreve as estruturas próprias do vício. Apenas sublinha que o masoquismo é um perpétuo esforço para nadificar a subjetividade do sujeito, fazendo com que seja reabsorvida pelo outro, e que este esforço é acompanhado pela fatigante e deliciosa consciência de fracasso, a ponto de ser o próprio fracasso aquilo que o sujeito acaba buscando como sua meta principal.

Até aqui a discussão sobre masoquismo. O texto continua com as idéias de Sartre sobre o sadismo na parte II. Até lá.