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O
fracasso da primeira atitude para com o outro pode
ser ocasião para que se adote uma segunda. Mas cabe
lembrar aqui que nenhuma das duas é realmente primordial:
cada uma é uma reação fundamental ao ser-Para-outro
como situação originária. Portanto, pode acontecer
que, pela própria impossibilidade de identificar-me
com a consciência do outro por intermédio de minha
objetividade para ele, eu seja levado a me voltar
deliberadamente para o outro e olhá-lo. Nesse caso,
o que Sartre chama de olhar o olhar do outro é colocar-se
a si mesmo em sua própria liberdade e tentar, do
fundo desta liberdade, afrontar a liberdade do outro.
 Minha tentativa
original de apossar-me da subjetividade livre do
Outro através de sua objetividade-para-mim é o desejo
sexual. Diz-se que o homem é um ser sexual porque
possui um sexo. E se for o contrário? E se o sexo
não for mais que o instrumento e, por assim dizer,
a imagem de uma sexualidade fundamental? E se o
homem só possuir um sexo por ser originária e fundamentalmente
um ser sexual, enquanto ser que existe no mundo
em conexão com outros homens? A sexualidade infantil
precede a maturação fisiológica dos órgãos sexuais;
os eunucos, por assim serem, não deixam de sentir
desejo. Nem como muitos idosos. O fato de poder
dispor de um órgão sexual apto a fecundar e buscar
o prazer só representa uma fase e um aspecto de
nossa vida sexual.
  Há um modo de
sexualidade "com possibilidade de satisfação", e
o sexo constituído representa e concretiza esta
possibilidade.
  A partir deste
ponto, Sartre mostra os mecanismos das relações
de desejo. Mas, de novo, vamos nos ater aqui, por
circunstâncias óbvias, somente ao tema do sadismo.
E aí o célebre existencialista francês nos lembra
que o desejo está na origem de seu próprio fracasso,
na medida que é desejo de tornar e apropriar-se.
Com efeito, não basta que a turvação faça nascer
a encarnação do Outro: o desejo é desejo de se apropriar
desta consciência encarnada.
  Portanto, prolonga-se
naturalmente, não mais por carícias, mas por atos
de preensão e penetração. A carícia só tinha por
objetivo impregnar de consciência e liberdade o
corpo do outro. Agora é preciso capturar esse corpo
saciado, segurá-lo e penetrar nele. Mas pelo simples
fato de que, neste momento, procuro apossar-me dele,
puxá-lo contra mim, agarrá-lo, mordê-lo, meu corpo
deixa de ser carne e volta a ser o instrumento sintético
que sou eu; e, ao mesmo tempo, o Outro deixa de
ser encarnação: volta a converter-se em instrumento
no meio do mundo, instrumento que apreendo a partir
de sua situação. Sua consciência, que aflorava à
superfície de sua carne e que eu tentava saborear
com minha carne, desvanece ante meus olhos: conserva-se
apenas como objeto com imagens-objetos em seu interior.
Ao mesmo tempo, minha turvação desaparece: não significa
que eu deixe de desejar, mas sim que o desejo perdeu
sua matéria, tornou-se abstrato; é desejo de manusear
e agarrar; obstino-me em agarrar, porém minha própria
obstinação faz desaparecer minha encarnação: agora,
transcendo novamente meu corpo rumo às minhas próprias
possibilidades (aqui, a possibilidade de agarrar),
e, igualmente, o corpo do Outro, transcendido rumo
às suas potencialidades, cai o nível de carne ao
nível de puro objeto. Esta situação implica a ruptura
da reciprocidade de encarnação, que era precisamente
o objetivo próprio do desejo: o Outro pode permanecer
turvo, pode continuar sendo carne para si mesmo,
e posso compreendê-lo, mas é uma carne que já não
apreendo com a minha, uma carne que já não é mais
senão propriedade de um Outro-objeto, e não a encarnação
de uma Outro-consciência. Assim, sou corpo (totalidade
sintética em situação) frente a uma carne. Encontro-me
novamente quase na situação da qual tentava justamente
sair Poe meio do desejo; ou seja, tento utilizar
o objeto-Outro para que preste contas de sua transcendência,
e, precisamente por ser todo objeto, ele me escapa
com toda a sua transcendência. Chego a perder, de
novo, a compreensão nítida daquilo que busco, e,
no entanto, acho-me comprometido na busca. Agarro
e me descubro no processo de agarrar, mas o que
agarro em minhas mãos é algo diferente daquilo que
queria agarrar, porque, juntamente com minha turvação,
a própria compreensão de meu desejo me escapa; sou
como um adormecido que, ao despertar, vê-se a ponto
de crispar as mãos sobre a borda do leito, sem lembrar-se
do pesadelo que provocou seu gesto. Esta situação
está na origem do sadismo.
  O sadismo é
paixão, secura e obstinação. É obstinação porque
é o estado de um Para-si que se capta como comprometido
e persiste em seu compromisso sem ter clara consciência
do objetivo a que se propôs, nem lembrança precisa
do valor que atribuiu a esse compromisso. É secura
porque aparece quando o desejo foi esvaziado de
sua turvação. O sádico recuperou seu corpo enquanto
totalidade sintética e centro de ação; recolocou-se
na fuga perpétua de sua própria facticidade; faz
experiência de si mesmo frente ao outro enquanto
pura transcendência; tem horror à turvação para
si mesmo e considera-a um estado humilhante; pode
até ocorrer, simplesmente, que não consiga realizá-la
em si mesmo.
  O sadismo é
um esforço para encarnar o Outro pela violência,
e esta encarnação "à força" já deve ser apropriação
e utilização do outro. O sádico procura - tal como
o desejo - despir o Outro dos atos que o disfarçam.
Procura descobrir a carne por baixo da ação. Na
dor, com efeito, a facticidade invade a consciência
e, por fim, a consciência reflexiva é fascinada
pela facticidade da consciência irrefletida. Portanto,
há de fato uma encarnação pela dor. Mas, ao mesmo
tempo, a dor é procurada por meio de instrumentos;
o corpo do Para-si torturador já nada mais é que
um instrumento para provocar dor. Assim, o Para-si,
desde a origem, pode nutrir a ilusão de apoderar-se
à maneira instrumental da liberdade do Outro, ou
seja, de verter esta liberdade na carne, sem deixar
de ser aquele que provoca, que agarra, que captura.
Vê-se logo o sentido da exigência sádica: a graça
revela a liberdade como propriedade do Outro-objeto
e remete, de modo obscuro, tal como fazem as contradições
do mundo sensível, no caso da reminiscência platônica,
a um Para-além transcendente, do qual só retemos
nebulosa recordação e que só podemos alcançar por
uma modificação radical de nosso ser, ou seja, assumindo
resolutamente nosso ser-Para-outro. O sádico, portanto,
visa destruir a graça para construir realmente outra
síntese do Outro: quer fazer aparecer a carne do
Outro; na sua própria aparição, a carne será destruidora
da graça, e a factibilidade irá reabsorver a liberdade-objeto
do Outro. O ideal do sádico, enfim, irá consistir
em alcançar o momento em que o Outro seja da carne;
o momento em que as coxas, por exemplo, já se oferecem
em uma passividade obscena e expansiva e continuam
sendo instrumentos que se pode manejar, separar,
arquear, a fim de ressaltar mais as nádegas e, por
sua vez, encarná-las. Mas não sublinha uma última
advertência: não nos iludamos. O que o sádico busca
com tal tenacidade, o que almeja amassar com as
mãos e submeter com os punhos é a liberdade do outro;
portanto, é da liberdade que o sádico tenta apropriar-se.
Assim, o esforço do sádico consiste em enviscar
o Outro em sua carne através da violência e da dor,
apoderando-se do corpo do Outro pelo fato de tratá-lo
como carne nascida da carne, mas esta apropriação
transcende o corpo de que se apropria, porque só
quer possuí-lo na medida em que enviscou em si a
liberdade do Outro. Eis porque o sádico irá exigir
provas manifestas desta servidão da liberdade do
Outro pela carne; seu propósito será fazer com que
ele peça perdão, obrigará o Outro se humilhar por
meio da tortura e da ameaça, irá forçá-lo a renegar
o que lhe é mais caro. Essas poucas indicações não
visam esgotar o problema do sadismo. O que Sartre
quis foi apenas mostrar que o sadismo está como
em germe no próprio desejo, como sendo o fracasso
de desejo: com efeito, a partir do momento que busco
possuir o corpo do Outro, o qual levei a encarnar
por meio de minha encarnação, rompo a reciprocidade
de encarnação e transcendo meu corpo rumo às suas
próprias possibilidades e me oriento na direção
do sadismo. Assim, na opinião de Sartre, sadismo
e masoquismo são os dois obstáculos do desejo, quer
eu transcenda a turvação rumo a uma apropriação
da carne do Outro, quer dê atenção somente à minha
carne, inebriado que esteja por minha própria turvação,
e nada mais exija do Outro senão o olhar que me
ajude a realizar minha carne. Devido a esta inconsistência
do desejo e sua perpétua oscilação entre esses dois
obstáculos é que Sartre passou a designar a sexualidade
"normal" como "sadomasoquista".
  Obs.: O leitor
atento não deve ter percebido que, quando Sartre
lança mão do termo "encarnação", obviamente não
está se referindo à rasa teoria kardecista.
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