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APROXIMAÇÕES BDSM ÀS REFLEXÕES
DE SARTRE REFERENTES À ATITUDE PARA COM O OUTRO

Parte 2
Skelter

      O fracasso da primeira atitude para com o outro pode ser ocasião para que se adote uma segunda. Mas cabe lembrar aqui que nenhuma das duas é realmente primordial: cada uma é uma reação fundamental ao ser-Para-outro como situação originária. Portanto, pode acontecer que, pela própria impossibilidade de identificar-me com a consciência do outro por intermédio de minha objetividade para ele, eu seja levado a me voltar deliberadamente para o outro e olhá-lo. Nesse caso, o que Sartre chama de olhar o olhar do outro é colocar-se a si mesmo em sua própria liberdade e tentar, do fundo desta liberdade, afrontar a liberdade do outro.

      Minha tentativa original de apossar-me da subjetividade livre do Outro através de sua objetividade-para-mim é o desejo sexual. Diz-se que o homem é um ser sexual porque possui um sexo. E se for o contrário? E se o sexo não for mais que o instrumento e, por assim dizer, a imagem de uma sexualidade fundamental? E se o homem só possuir um sexo por ser originária e fundamentalmente um ser sexual, enquanto ser que existe no mundo em conexão com outros homens? A sexualidade infantil precede a maturação fisiológica dos órgãos sexuais; os eunucos, por assim serem, não deixam de sentir desejo. Nem como muitos idosos. O fato de poder dispor de um órgão sexual apto a fecundar e buscar o prazer só representa uma fase e um aspecto de nossa vida sexual.

       Há um modo de sexualidade "com possibilidade de satisfação", e o sexo constituído representa e concretiza esta possibilidade.

       A partir deste ponto, Sartre mostra os mecanismos das relações de desejo. Mas, de novo, vamos nos ater aqui, por circunstâncias óbvias, somente ao tema do sadismo. E aí o célebre existencialista francês nos lembra que o desejo está na origem de seu próprio fracasso, na medida que é desejo de tornar e apropriar-se. Com efeito, não basta que a turvação faça nascer a encarnação do Outro: o desejo é desejo de se apropriar desta consciência encarnada.

       Portanto, prolonga-se naturalmente, não mais por carícias, mas por atos de preensão e penetração. A carícia só tinha por objetivo impregnar de consciência e liberdade o corpo do outro. Agora é preciso capturar esse corpo saciado, segurá-lo e penetrar nele. Mas pelo simples fato de que, neste momento, procuro apossar-me dele, puxá-lo contra mim, agarrá-lo, mordê-lo, meu corpo deixa de ser carne e volta a ser o instrumento sintético que sou eu; e, ao mesmo tempo, o Outro deixa de ser encarnação: volta a converter-se em instrumento no meio do mundo, instrumento que apreendo a partir de sua situação. Sua consciência, que aflorava à superfície de sua carne e que eu tentava saborear com minha carne, desvanece ante meus olhos: conserva-se apenas como objeto com imagens-objetos em seu interior. Ao mesmo tempo, minha turvação desaparece: não significa que eu deixe de desejar, mas sim que o desejo perdeu sua matéria, tornou-se abstrato; é desejo de manusear e agarrar; obstino-me em agarrar, porém minha própria obstinação faz desaparecer minha encarnação: agora, transcendo novamente meu corpo rumo às minhas próprias possibilidades (aqui, a possibilidade de agarrar), e, igualmente, o corpo do Outro, transcendido rumo às suas potencialidades, cai o nível de carne ao nível de puro objeto. Esta situação implica a ruptura da reciprocidade de encarnação, que era precisamente o objetivo próprio do desejo: o Outro pode permanecer turvo, pode continuar sendo carne para si mesmo, e posso compreendê-lo, mas é uma carne que já não apreendo com a minha, uma carne que já não é mais senão propriedade de um Outro-objeto, e não a encarnação de uma Outro-consciência. Assim, sou corpo (totalidade sintética em situação) frente a uma carne. Encontro-me novamente quase na situação da qual tentava justamente sair Poe meio do desejo; ou seja, tento utilizar o objeto-Outro para que preste contas de sua transcendência, e, precisamente por ser todo objeto, ele me escapa com toda a sua transcendência. Chego a perder, de novo, a compreensão nítida daquilo que busco, e, no entanto, acho-me comprometido na busca. Agarro e me descubro no processo de agarrar, mas o que agarro em minhas mãos é algo diferente daquilo que queria agarrar, porque, juntamente com minha turvação, a própria compreensão de meu desejo me escapa; sou como um adormecido que, ao despertar, vê-se a ponto de crispar as mãos sobre a borda do leito, sem lembrar-se do pesadelo que provocou seu gesto. Esta situação está na origem do sadismo.

       O sadismo é paixão, secura e obstinação. É obstinação porque é o estado de um Para-si que se capta como comprometido e persiste em seu compromisso sem ter clara consciência do objetivo a que se propôs, nem lembrança precisa do valor que atribuiu a esse compromisso. É secura porque aparece quando o desejo foi esvaziado de sua turvação. O sádico recuperou seu corpo enquanto totalidade sintética e centro de ação; recolocou-se na fuga perpétua de sua própria facticidade; faz experiência de si mesmo frente ao outro enquanto pura transcendência; tem horror à turvação para si mesmo e considera-a um estado humilhante; pode até ocorrer, simplesmente, que não consiga realizá-la em si mesmo.

       O sadismo é um esforço para encarnar o Outro pela violência, e esta encarnação "à força" já deve ser apropriação e utilização do outro. O sádico procura - tal como o desejo - despir o Outro dos atos que o disfarçam. Procura descobrir a carne por baixo da ação. Na dor, com efeito, a facticidade invade a consciência e, por fim, a consciência reflexiva é fascinada pela facticidade da consciência irrefletida. Portanto, há de fato uma encarnação pela dor. Mas, ao mesmo tempo, a dor é procurada por meio de instrumentos; o corpo do Para-si torturador já nada mais é que um instrumento para provocar dor. Assim, o Para-si, desde a origem, pode nutrir a ilusão de apoderar-se à maneira instrumental da liberdade do Outro, ou seja, de verter esta liberdade na carne, sem deixar de ser aquele que provoca, que agarra, que captura. Vê-se logo o sentido da exigência sádica: a graça revela a liberdade como propriedade do Outro-objeto e remete, de modo obscuro, tal como fazem as contradições do mundo sensível, no caso da reminiscência platônica, a um Para-além transcendente, do qual só retemos nebulosa recordação e que só podemos alcançar por uma modificação radical de nosso ser, ou seja, assumindo resolutamente nosso ser-Para-outro. O sádico, portanto, visa destruir a graça para construir realmente outra síntese do Outro: quer fazer aparecer a carne do Outro; na sua própria aparição, a carne será destruidora da graça, e a factibilidade irá reabsorver a liberdade-objeto do Outro. O ideal do sádico, enfim, irá consistir em alcançar o momento em que o Outro seja da carne; o momento em que as coxas, por exemplo, já se oferecem em uma passividade obscena e expansiva e continuam sendo instrumentos que se pode manejar, separar, arquear, a fim de ressaltar mais as nádegas e, por sua vez, encarná-las. Mas não sublinha uma última advertência: não nos iludamos. O que o sádico busca com tal tenacidade, o que almeja amassar com as mãos e submeter com os punhos é a liberdade do outro; portanto, é da liberdade que o sádico tenta apropriar-se. Assim, o esforço do sádico consiste em enviscar o Outro em sua carne através da violência e da dor, apoderando-se do corpo do Outro pelo fato de tratá-lo como carne nascida da carne, mas esta apropriação transcende o corpo de que se apropria, porque só quer possuí-lo na medida em que enviscou em si a liberdade do Outro. Eis porque o sádico irá exigir provas manifestas desta servidão da liberdade do Outro pela carne; seu propósito será fazer com que ele peça perdão, obrigará o Outro se humilhar por meio da tortura e da ameaça, irá forçá-lo a renegar o que lhe é mais caro. Essas poucas indicações não visam esgotar o problema do sadismo. O que Sartre quis foi apenas mostrar que o sadismo está como em germe no próprio desejo, como sendo o fracasso de desejo: com efeito, a partir do momento que busco possuir o corpo do Outro, o qual levei a encarnar por meio de minha encarnação, rompo a reciprocidade de encarnação e transcendo meu corpo rumo às suas próprias possibilidades e me oriento na direção do sadismo. Assim, na opinião de Sartre, sadismo e masoquismo são os dois obstáculos do desejo, quer eu transcenda a turvação rumo a uma apropriação da carne do Outro, quer dê atenção somente à minha carne, inebriado que esteja por minha própria turvação, e nada mais exija do Outro senão o olhar que me ajude a realizar minha carne. Devido a esta inconsistência do desejo e sua perpétua oscilação entre esses dois obstáculos é que Sartre passou a designar a sexualidade "normal" como "sadomasoquista".

       Obs.: O leitor atento não deve ter percebido que, quando Sartre lança mão do termo "encarnação", obviamente não está se referindo à rasa teoria kardecista.