A
famosa descrição de Masters e Johnson sobre
os estágios do ciclo da resposta sexual feminina,
posteriormente aprimorada por Helen Kaplan,
sublinha o fato de que o ciclo feminino resulta
da coordenação e da integração de diversos componentes
distintos e relativamente independentes: (1) fase
do desejo; (2) fase vasocongestiva de excitação
e nivelamento sexual inicial, que produz a lubrificação
vaginal e a tumescência; e (3) contrações musculares
clônicas reflexas que constituem a fase orgásmica.
Como na resposta sexual masculina, a natureza
multifásica da resposta sexual feminina é apoiada
pelo fato de que: (1) cada componente é servido
por estruturas anatômicas distintas e (2) a inibição
dos componentes separados acarreta síndromes clínicas
separadas, que requerem intervenções terapêuticas
um tanto diferentes.
Todavia, essa distinção se dá em bases
um tanto menos firmes nas mulheres do que nos
homens, por causa da escassez de pesquisas sobre
a neuroanatomia da reatividade sexual feminina
e em decorrência de dificuldades encontradas na
mensuração de respostas sexuais femininas, menos
prontamente observáveis.
Aqui, colocamos a definição menos detalhada,
afinal, no sexo masculino, algumas das fases são
visuais, o que, na mulher, podemos analisar apenas
através das descrições e das sensações que o corpo
nos dá como resposta ao estímulos e ao orgasmo.
Embora a lubrificação e a tumescência sejam
regularmente observadas, mesmo que o orgasmo possa
deixar de ocorrer, é menos certo que a resposta
orgásmica possa ocorrer sem que se manifestem,
previamente, a lubrificação e a tumescência (convém
lembrar que a ejaculação pode ocorrer sem a ereção).
As três fases sucessivas do ciclo da resposta
sexual feminina normal são: (1) desejo; (2) lubrificação-tumescência
(fases de excitação e nivelamento); e (3) fase
orgásmica.
Fase do desejo
A fisiologia do desejo sexual feminino
é precariamente compreendida. Entretanto, está
razoavelmente esclarecido que é o androgênio,
e não o estrogênio, que fornece a base hormonal
para o impulso sexual feminino. A queda dos níveis
de estrogênio, por si mesma, como ocorre durante
a menopausa ou em decorrência de castração
cirúrgica ou por radiação, não afeta o interesse
sexual feminino.
Por outro lado, a eliminação dos suprimentos
endógenos de androgênio, ou a administração de
androgênio exógeno, pode alterar drasticamente
o impulso sexual da mulher. Talvez seja também
verdadeiro que as várias flutuações de desejo
sexual, registradas durante o ciclo menstrual
feminino, resultem do possível efeito antilibidinoso
da progesterona.
Como acontece com os homens, os distúrbios
afetivos, como a depressão e a bulemia, estão
freqüentemente associados a flutuações significativas
no interesse sexual, implicando na presença de
transmissores centrais aminados como fatores do
desejo sexual feminino. Além disso, não devemos
nos esquecer, aqui, do fator cultural, que afeta,
e muito, a libido feminina.
Fase de excitação (estágio inicial da
fase de lubrificação-tumescência)
A fase de excitação, geralmente, começa
por um sentimento subjetivo de excitação sexual,
pelo início de uma reação orgânica generalizada
de miotonia (tensão muscular), vasocongestão e
início de lubrificação vaginal. Cerca de 10 a
30 segundos após o começo de uma estimulação sexual
eficaz, uma reação vasocongestiva nos tecidos
que circundam a vagina faz com que um transudato
passe através das paredes da vagina e forme gotículas
no seu revestimento interior. Essas gotículas
logo se agregam, formando a lubrificação vaginal.,
de caráter viscoso e coloração opaca transparente.
Outras alterações que ocorrem durante a
fase de excitação incluem um ligeiro aumento do
clitóris, devido a vasocongestão, e a ampliação
do útero, face a seu ingurgitamento com sangue
e ao início de sua elevação da posição original
de repouso. À medida que o útero se eleva, produzindo
o efeito de uma barraca, a parte posterior da
vagina começa a expandir-se e inflar-se; o que
amplia funcionalmente a vagina e aumenta sua capacidade
de acomodar o pênis.
Fase de platô
Durante a fase de platô, a vasocongestão
local atinge sua extensão máxima e os pequenos
lábios, ingurgitados, assumem uma intensa coloração
arroxeada ou cor de vinho. O terço anterior, ou
inferior, da vagina atinge sua vasocongestão máxima,
formando uma "plataforma orgásmica". As modificações
adicionais, durante a fase de nivelamento ou platô,
incluem uma ascensão ainda maior do útero e a
retração do clitóris de sua posição protuberante,
colocando-se por trás da sínfise pubiana.
Nesse ponto, a mulher tende a aumentar
a lordose e retroprojetar seu corpo, a fim de
melhor encaixar o pênis dentro do canal e facilitar
a movimentação.
Fase orgásmica
O orgasmo feminino consiste em contrações
reflexas e ritmadas dos músculos perivaginais
e perineais, que circundam a vagina, a intervalos
de 0,8 segundo. Essas contrações são particularmente
visíveis no terço inferior da vagina, a plataforma
orgásmica. O útero participa também dessas contrações
rítmicas e, durante a menstruação, pode-se, às
vezes, observar o sangue escoando em jatos do
osso cervical.
Contrariamente ao homem, a resposta orgásmica
feminina não é acompanhada por um período resistente.
A mulher é, imediatamente, capaz de atingir um
segundo orgasmo, caso a estimulação sexual prossiga.
De fato, os orgasmos adicionais são possíveis,
até que a exaustão física interfira. Essa exaustão
é identificada pela fadiga muscular, dificuldade
de respiração ou, ainda, de contorcionismo do
corpo.
Masters e Johnson registraram
um fenômeno ao qual denominam status orgasmicus,
no qual a mulher, sexualmente reativa, oscila
"com extrema rapidez entre picos orgásmicos sucessivos...
e a tensão da fase avançada de nivelamento". O
status orgasmicus pode durar de 20 a 60 segundos.
Esses investigadores também relataram que,
embora a fisiologia da resposta sexual feminina
pareça ser a mesma, independentemente do modo
de estimulação, a intensidade fisiológica máxima
na resposta orgásmica parece ocorrer, geralmente,
durante a masturbação, ocorrendo a resposta de
menor intensidade durante o coito. Essa regra
geral pressupõe que todas as formas de estimulação
são aceitáveis.
Fase de resolução
Na fase de resolução, as
alterações fisiológicas, ocorridas durante a resposta
sexual, regridem e os tecidos reativos retornam
a um estado de repouso. Embora o clitóris geralmente
retorne à sua posição normal em 10 segundos e
a plataforma orgásmica sofra uma rápida detumescência,
10 a 15 minutos podem transcorrer antes que a
vagina retorne a seu estado habitual não-estimulado
e para que o útero desça até sua posição basal.
Os pequenos lábios começam a perder sua intensa
coloração arroxeada momentos após o orgasmo.
Fontes:
Patologia e Terapia Sexual - 1ª
Ed. - 1994.
Guyton - Fisiologia Humana - 13º
ed - 2001.