Pretendemos
aqui abordar o tema "moral" e associa-lo com o
BDSM - embora saibamos que o termo "associar"
não seria o mais adequado, tendo em vista o que
moral e BDSM representam. Não vamos partir do
princípio de que o conceito de moral e suas variações
na sociedade sejam perfeitamente conhecidas e
entendidas, embora todos já tenham ouvido falar
nisso em algum momento de suas vidas. Também não
pretendemos esgotar o assunto porque ele é inesgotável
e ricamente diversificável. Entretanto acreditamos
que aqui estamos fornecendo alguns subsídios para
a flexibilização do tema e para que as pessoas
possam conduzir suas relações BDSM (ou não) da
melhor forma possível dentro do SSC.
"A comunidade SM, seja nacional
ou internacional, vem se expandindo e com isso
surge a necessidade de estarmos orientando a todos,
principalmente para que os novatos conduzam suas
relações BDSM de uma forma segura e consensual,
a fim de que a sua forma de expressão do prazer
sexual seja preservada de forma saudável."
(Delmônica, BDSM e suas afinidades com o jogo)
Situada dentro do aspecto
sócio-cultural das sociedades, mais especificamente
no campo da antropologia social, as práticas
BDSM são uma das formas através das quais o
indivíduo expressa sua sexualidade. A sexualidade
aparece no ser humano desde muito cedo e suas
primeiras manifestações não tem caráter genital,
mas trata-se mais da organização do impulso
libidinal que, mais tarde, será fundamental
na busca do prazer sexual. Justamente por isso,
o termo "sexualidade" é bastante amplo, não
resumindo apenas a atividade sexual.
Desde que vive em sociedade o homem invariavelmente
esbarra em problemas de relacionamentos (afetivos
ou não), ligados ou não a sua sexualidade. E
esses problemas sempre trazem a questão do conhecimento
sobre outra pessoa. Sobre esperarmos que alguém
seja assim e comprovarmos, mais tarde, que ela
é "assado". Não raro é nos encontrarmos perplexos
diante das atitudes de algumas pessoas, amigos,
colegas, conhecidos, entes mais próximos e nos
perguntarmos, internamente, o que poderia ter
levado aquela pessoa a fazer o que fez. Não
que o que ela tenha feito seja certo ou errado,
mas sim porque o que ela fez não era o que "nós"
esperávamos que fizesse ou simplesmente porque
o que fez nos causou espanto. A moral pode ser
um dos principais aspectos que se possa observar
em alguém para que possamos qualificar aquele
alguém como um possível parceiro ou parceira
para o nosso convívio, nossa amizade, nossa
prática BDSM.
"As pessoas não vêm com
nenhuma espécie de 'painel' onde apresentam
um 'detector' de caráter, um 'medidor' de intenções,
um 'localizador' de objetivos ou, ainda, um
'indicador' de equilíbrio mental."
(Delmônica, BDSM x Comportamento - 2a parte)
E é por essas palavras
transcritas acima, de Delmônica, que temos que
ser perspicazes e abertos para nos conhecermos
e buscarmos de forma prazerosa a nossa satisfação
através do BDSM e devemos ter muito cuidado
e atenção ao escolhermos os nossos parceiros
nesse jogo. Embora isso não seja uma tarefa
simples, não é, contudo, impossível de se fazer
de forma um pouco mais segura.
Entretanto, cabe aqui ressaltar, antes
de entrarmos no assunto propriamente dito, que
não pretendemos "ensinar" nada a ninguém, nem
"criar uma moral" e muito menos fazer apologia
sobre o que é certo ou errado. Cada um, dentro
do seu contexto, é que melhor sabe, sempre,
o que é ou não adequado para si.
Reiteramos que os conceitos e definições
aqui expostos são, antes de tudo, um estudo
fundamentado sobre o tema proposto, estando
citados no final do artigo toda bibliografia
utilizada. Entendemos que o leitor, leigo ou
não, poderá e deverá buscar sempre maiores informações,
outras fontes sobre o assunto e inclusive contribuir
com idéias e sugestões - desde que não sejam
meros "achismos" sem sentido e que não se desvinculem
da realidade que ora vivemos.
Há bilhões de anos atrás o homem primitivo
relaciona-se com outros de sua espécie e interage
com a natureza buscando submetê-la. A própria
fraqueza de suas forças diante do mundo que
o rodeia determina que, para enfrentá-lo e tentar
domina-lo, reúnam todos seus esforços com o
objetivo de multiplicar o seu poder. A fragilidade
de seus filhotes, que exigem um período de cuidados
mais prolongado do que outras espécies, leva
o homem primitivo a permanecer mais tempo junto
a fêmea e assim, garantir a perpetuação da espécie.
Dessa forma, agrupam-se em tribos, clãs, num
arranjo semelhante ao que entendemos hoje por
família, onde passam a conviver.
Notamos aqui que a "família" não surge
de uma imposição externa ao homem, mas de uma
necessidade natural por ele internalizada de
manter-se, de viver mais, de impor-se sobre
o mundo hostil daquela época e assim perpetuar
a espécie. E dessa "vida social" em tribos e
clãs e da observação das atividades de seus
integrantes, surge a compreensão comum de todos
os membros da tribo do que são valores bons
e maus para a harmonia da clã/tribo. Valores
como coragem/covardia, força/fraqueza, bondade/maldade,
altruísmo/egoísmo... O trabalho do homem primitivo
assume, na tribo, um caráter coletivo e o fortalecimento
da coletividade se transforma numa necessidade
vital. Somente o caráter coletivo do trabalho
e, em geral, da vida social, garante a subsistência
e a afirmação da tribo. Assim, cada membro da
tribo recebe atividades para desempenhar para
que a mesma possa se desenvolver em harmonia.
A mãe a cuidar dos filhos, da comida, os mais
velhos a ensinar os mais novos, os bravos a
cuidarem da segurança e caça, etc.
Então uma série de normas, mandamentos
ou prescrições não escritas surgem a partir
dos atos ou qualidades dos membros da tribo
que beneficiam a comunidade. Essas normas são
aceitas por todos e por todos cumpridas para
o bem da comunidade. Nascia então, lá naquele
tempo distante e primitivo, o que chamamos hoje
de MORAL, do latin "mos" (costume) ou "mores"
(costumes), com a finalidade de assegurar a
concordância do comportamento de cada um com
os interesses coletivos dos membros da tribo
(sociedade). Um conceito mais elaborado e completo
do termo moral podemos dar agora como sendo:
"... um sistema de normas,
princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas
as relações mútuas entre os indivíduos ou entre
estes e a comunidade, de tal maneira que estas
normas, dotadas de um caráter histórico e social,
sejam acatadas livre e conscientemente, por
uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica,
externa ou impessoal."
(VÁZQUEZ, 1987)
Dentro deste conceito
podemos ver que a moral compreende um aspecto
normativo (regras de ação) e um aspecto factual
(atos que se conformam num sentido ou no outro
com as normas mencionadas). E que mesmo a moral
possuindo um caráter social, o indivíduo tem
um papel essencial, visto que exige primeiro
a interiorização dessas normas em cada homem
individual, sua adesão íntima ou reconhecimento
interior dessas normas estabelecidas e sancionadas
pela comunidade. Natural isso porque para que
existe uma comunidade é preciso que cada ser
individual a componha. Podemos dizer, observando
o desenvolvimento da humanidade, que a moral
aparece primeiro em seu aspecto factual e posteriormente,
com o surgimento do Estado, aparece em seu aspecto
normativo.
Exemplificando o aspecto factual da moral,
podemos dizer que "não mentir" é uma postura
internalizada pela grande maioria das pessoas
e por elas aceita naturalmente, não havendo
uma regra escrita para todos onde diga que "Não
se deve mentir." Vamos excluir aqui os dogmas
religiosos porque eles fariam referência a um
grupo específico de pessoas (as que professam
aquela religião) não abrangendo os demais. Ninguém
é preso, na sociedade atual, por ter dito uma
mentira sem grandes conseqüências. No entanto
o mentiroso inveterado, identificado por um
grupo, sofre as restrições morais factuais daquele
grupo: exclusão do mesmo, descrédito, desconfiança,
etc. Já a afirmativa "não matar" é um aspecto
normativo da moral de nossa atual sociedade,
escrito na Constituição e imposto aos membros
da sociedade pelo poder coercitivo do Estado.
Mas sabemos, pela história, que em outros tempos,
em algumas sociedades, a disponibilidade sobre
a vida de outras pessoas era bastante natural
para os que detinham o poder. Matar, nessas
sociedades, era aceitável, desde que da vontade
do Senhor.
Quando o indivíduo age de acordo com
"uma moral", ele pratica um ato moral.
O ato moral é o resultado concreto do comportamento
moral dos indivíduos e os aspectos/elementos
que o integram são: motivos, intenção, decisão,
meios e resultados. A moral, assim como as sociedades,
se sucedem e substituem umas as outras, através
dos tempos, e por isso possuem um caráter histórico,
não podendo ser concebida como dada de uma vez
para sempre e sim considerada como um aspecto
da realidade humana mutável com o tempo. Por
isso, observando o desenvolvimento das sociedades
historicamente, podemos ver sociedades com costumes
diferentes que foram "progredindo" através dos
tempos e, inclusive, costumes que foram abolidos.
Um claro exemplo disso era a sociedade escravagista,
que não considerava os escravos (negros) como
pessoas que pudessem ter uma alma e serem considerados
como humanos. Naquela época este pensamento
era perfeitamente aceitável. Hoje, estudando
tal sociedade, achamos que aquela prática era
errada e que o pensamento estava errado. Mas
precisamos também considerar que nós, hoje,
somos o fruto evoluído daquela sociedade. E
precisamos também observar que em muitas pessoas
ainda existe o forte sentimento daquela sociedade,
traduzida pelo preconceito, transmitido por
seus ascendentes e internalizado por elas. É
óbvio que hoje entendemos perfeitamente que
os escravos (negros) são seres humanos com alma
e com os mesmos direitos que nós. Talvez hoje,
nós mesmos tenhamos certos conceitos tão arraigados
em nós e tenhamos tanta certeza que estejam
certos e daqui a dez, quinze anos tais conceitos
sejam considerados "errados" pela sociedade
evoluída daquela época. Tais análises de sociedades,
tomando épocas diferentes, é bastante interessante
e digna de ser abordada em texto posterior,
considerando os vários aspectos das mudanças
das sociedades.
A moral não exige só que o homem esteja
em relação com os demais, mas também exige certa
consciência - por limitada e imprecisa
que seja - desta relação, para que se possa
comportar de acordo com as normas ou prescrições
que o governam.
Uma distinção é importante que se faça
aqui entre moral e ética, para que no decorrer
do texto se entenda melhor quando nos referimos
a um e a outro. Todos os problemas práticos
reais, surgidos das relações propriamente
ditas entre os indivíduos são problemas morais
que o indivíduo busca resolver utilizando as
normas comportamentais que lhe foram ensinadas
no meio em que vive (família, sociedade). E
estas normas são aceitas internamente por ele
e reconhecidas como obrigatórias e de acordo
com elas o indivíduo entende que tem o dever
de agir desta ou daquela maneira.
Então, quando numa prática BDSM o/a Dominador/a
escolhe parar com a cena combinada com a/o submissa/o
mesmo que a/o submissa/o não peça ou queira
a interrupção, o/a Dominador/a está agindo de
acordo com normas que por ele/a foram aceitas
e internalizadas - porque ele/ela pressente
que se continuar com a prática indiscriminadamente
poderá advir algum problema que atente contra
a integridade física e/ou moral de sua/seu submissa/o
e isso lhe parece errado. Outras pessoas refletindo
sobre essa atitude do/a Dominador/a poderiam
julgar e formular juízos, aprovando ou não a
atitude tomada ("- O Dominador X agiu corretamente
ao parar naquele momento.")
Então vemos que temos de um lado atos
e formas de comportamento dos homens diante
de determinados problemas (problemas morais)
e de outro lado, juízos que aprovam ou
desaprovam esses mesmos atos. Conseqüentemente,
esses atos e formas de comportamento
humano e os juízos feitos sobre eles
pressupõem a existência de uma norma - a de
que deve-se respeitar a vida acima de tudo (o
"não matar"). E pressupõem também que eu vivo
em sociedade porque eu quero e assim sendo me
preocupo com o que possam pensar de mim aqueles
que comigo convivem. Inevitavelmente seremos
seres sociais para o resto de nossas vidas porque
quer queiramos ou não, vivemos em busca de aprovação
daqueles que nos cercam. Só podemos fazer o
que quisermos se esse nosso querer não agredir
a outrém.
Na vida real, constantemente, defrontamo-nos
com problemas práticos e para resolvê-los recorremos
às normas, cumprimos determinados atos, formulamos
juízos e nos utilizamos de argumentos ou razões
para justificar a decisão tomada ou os passos
dados. Assim, esse comportamento efetivo, tanto
dos indivíduos quanto dos grupos sociais, de
ontem ou de hoje, é chamado de comportamento
humano prático-moral, mesmo sujeito a
variação de uma época para a outra e de uma
sociedade para outra e vem desde as próprias
origens do homem social, lá na sua clã/tribo.
Se por um lado esse comportamento prático-moral
acompanha o homem desde as suas origens, já
a reflexão sobre esse comportamento surge
muitos milênios depois. Assim, o homem age
moralmente e também reflete sobre
esse comportamento, passando da moral prática
para a teoria da moral. Isto é, ele reflete
e questiona um ato que pode ter sido feito no
presente ou no passado, emitindo juízos sobre
ele. Essa reflexão sobre o comportamento prático
moral do homem se verifica com o início do pensamento
filosófico e caracteriza o surgimento dos problemas
teóricos morais ou éticos. Então, quando precisamos
agir num determinado momento usando apenas nossa
própria concepção e critérios de moral, enfrentamos
um problema prático-moral. E quando refletimos
sobre as atitudes que tivemos, estamos diante
de um problema teórico moral ou ético. Então
a ética é a ciência que estuda a moral e que
nos diz o que é um comportamento ditado por
normas ou em que consiste o fim - bom - visado
pelo comportamento moral.
Como diz Vázquez:
"O problema do que fazer
em cada situação concreta é um problema prático-moral
e não teórico-ético. Ao contrário, definir o
que é bom não é um problema moral cuja solução
caiba ao indivíduo em cada caso particular,
mas um problema geral de caráter teórico, de
competência do investigador da moral, ou seja,
do ético."
(VÁZQUEZ)