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O poeta , nós e o teatro da mente
Me and mine

Não foi pensando em BDSM que o poeta inglês - considerado maldito na sua época - Samuel Taylor Coleridge cunhou, um belo dia, o seu mais famoso conceito - the willed suspension of disbelief - ou seja, a suspensão voluntária da descrença.

O que ele pretendia era discorrer sobre o "acordo tácito" entre o criador de uma obra e seu público, que permitiria a este público manter sua mente aberta e mergulhar na obra que lhe é apresentada, de maneira a se identificar com os personagens, passando de um público expectador ou leitor a um público participante. Tal condição sugerida por Coleridge, no entanto, nada mais é do que a capacidade de deixarmos de lado, temporariamente, a nossa realidade, o mundo em que vivemos, para entrarmos de cabeça e de coração na realidade e no mundo que o autor coloca à nossa frente, aproveitando o sonho que ele criou para o nosso próprio prazer.

Trata-se, portanto, de algo que todos nós já fizemos - e mais de uma vez - na vida. Quem nunca se emocionou com um filme, um livro, uma novela ou qualquer outra obra do gênero, mesmo que momentaneamente, mesmo que disfarçadamente, deve ter algum tipo de bloqueio emocional. Pois é exatamente isso o que acontece numa cena BDSM. Trata-se de deixar de lado a nossa vida "normal", para entrarmos temporariamente em um outro mundo, igualmente feito de fantasia. Uma fantasia mais palpável, é verdade, pois nossa referência não será uma tela, a página de um livro ou o palco do teatro, mas estará ao alcance de nossas próprias mãos. E ainda mais: um mundo de fantasia no qual temos o poder de escrever o roteiro, de determiná-lo, de fazer acontecer o que desejamos dentro dos limites de sanidade, da segurança e da consensualidade, bases nas quais se baseiam os nossos relacionamentos sadomasoquistas.

Uma cena BDSM, portanto, deve ter para seus praticantes este mesmo caráter de fantasia que tem um filme ou uma peça de teatro. A diferença principal é que estaremos participando ativamente dela - e participar ativamente implica em uma responsabilidade maior do que ser meramente um expectador. E é isso o que os nossos amigos baunilhas (e infelizmente, devemos dizer, alguns de nossos amigos bdsmistas) não são capazes de fazer. Viver uma cena BDSM é se desligar temporariamente do mundo real para se entregar a um prazer (no caso, sexual) envolto em fantasia, do qual se pode voltar depois, sem que isso signifique que se está louco (ou será que alguém já ficou louco vendo um filme ou assistindo uma novela?).

Para os baunilhas, o grande problema é simplesmente a questão sexual. Na mente deles, ao que parece, mergulhar num mundo fictício de um livro ou de um filme é simples e aceitável. Fazer isso no mundo BDSM - embora o conceito, repito, seja exatamente o mesmo - é algo complexo e indesculpável. Pecaminoso, se quiserem.

A grande maioria dos baunilhas - estatisticamente chutando, aí por uns 90% - jamais cogitaram da possibilidade de se libertar de suas próprias amarras para experimentar outras sensações (no caso, sexuais), simplesmente por incapacidade para compreender um ponto essencial: tais sensações outras são, ao fim e ao cabo, fantasias a serem exploradas.

Embora isso possa parecer óbvio, para muita gente continua sendo algo invisível. Ou que passa debaixo de seus próprios narizes, sem que se dêem conta disso. De fato, todos nós - baunilhas ou não - temos a capacidade de fantasiar as coisas. E fazemos isso desde sempre; e com tamanha naturalidade, que nem percebemos mais. E o fazemos, vale repetir, em relação a muitas coisas: um filme de Spielberg, uma novela global, um livro, uma peça de teatro - situações que requerem de nós a tal suspensão voluntária da descrença. Uma pena para eles, os baunilhas, porque estão perdendo a chance de vivenciar uma outra realidade, da qual, assim como num livro ou num filme, voltariam, depois, enriquecidos. Em conhecimentos, em idéias, em conceitos e, o principal, em prazer.

Para alguns bdsmistas, o grande problema é que eles se recusam a vivenciar suas experiências como fantasias. Querem que aquilo seja sua vida real. Querem inverter as coisas. E aí começam a aparecer conflitos sérios, primeiro com seus próprios amigos e parceiros, depois com as demais pessoas de seus círculos de amizade e, por fim, com eles mesmos. Daí a importância - e a nossa insistência - de afirmar que o jogo BDSM é uma fantasia, tanto quanto o é uma peça de teatro ou um filme. Para além de seu aspecto lúdico, a prática do BDSM se move, perigosamente, na direção das patologias. Assim como na leitura de um livro ou no ato de se assistir a um filme, as coisas terminam quando se chega à última página ou quando as luzes se acendem. No jogo BDSM isso também acontece: o livro vai acabar, as luzes vão acender... e a cena vai terminar.

A realidade, ao final da cena, continua no mesmo lugar de antes - e é fácil voltar para ela, quando se desejar. O que mudou de lugar foi a nossa mente, mergulhada temporariamente em novas sensações, em novas emoções, em um novo mundo, com segurança e de livre vontade, exatamente como se estivéssemos confortavelmente instalados numa poltrona de cinema... E é por isso que o BDSM é tão sedutor: ele mexe com dois dos mais essenciais elementos que nos tornam humanos: a imaginação e o sexo praticado de maneira consciente.