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TABUS E SADOMASOQUISMO:
RUPTURA E INSPIRAÇÃO
#dumuz#_RF

1. Introdução

Essa série de "análises" foi iniciada a partir de uma pergunta: Por que várias submissas, ao longo do tempo, se transformavam em dominadoras? Por que essa passagem do masoquismo ao sadismo?

Disso resultou a discussão dos itens 1 e 2, nos quais surgiu a tese de que as experiências sadomasoquistas tinham como um tema original a ruptura de um tabu estabelecido pela civilização.

Essa "tese" se fundamenta na necessidade contínua e dupla do sadomasoquismo de ritualizar e transgredir em suas formas de expressão.

O resultado é um texto completamente desigual e heterogêneo. Não foi resultado de um plano ou um estudo mas uma reflexão feita diante do teclado, "pensando em voz alta".

O objetivo é ser muito mais um texto sugestivo do que científico. Mais retórico, no sentido de querer fixar motivações, do que lógico, ou seja, nos prover de demonstrações.

Não é o caso de agradar ou aprovar, mas apenas, pensar sobre esses tabus...

2. Dominação feminina: de submissa a dominadora

Mesmo a mais masoquista das mulheres poderá se deparar com a incômoda questão: o poder de vida ou morte sobre o embrião/feto/criança em seu útero, que se concretiza no aborto.

Essa experiência ou, ao menos, para as que nunca engravidaram, a possibilidade biológica dessa experiência, remetem à mulher diretamente ao poder de criar e destruir concretamente outra pessoa, coisa que as pessoas do sexo masculino só podem experimentar simbolicamente, por meio da cultura (guerra, nesse caso, é cultura).

São dois extremos - o amor supremo que pode dar a vida, uma ira suprema que pode dar a morte (não falemos do aborto no sentido moral ou ético agora, porque a ética e a moral já pertencem à civilização). Esses extremos são vividos pela mulher de uma forma muito concreta, o que as capacita, visceralmente e naturalmente, a um domínio que exerce o poder sem destruir, mas mantendo a destruição sempre possível.

Sade é um exemplo de dominador que dificilmente se tornaria submisso. Entretanto, seu sadismo :) já é uma construção cultural. Nele permanece em aberto a possibilidade de que muitos homens sejam dominadores e assim o permaneçam, pois a dominação masculina é, em grande parte, resultante da construção da paternidade a partir do poder fálico, que serviu de contraponto e equilíbrio ao possível delírio das mães furiosas e uterinas, mas foi na verdade, uma trabalhosa e complexa elaboração cultural, dado que o falo, por si, não tem o poder destruidor do útero, que pode *por si mesmo* abortar a vida... (para além do desejo cultural da mãe, como no caso do aborto natural).

Lembremos que tanto Urano como Saturno, já deuses de uma era patriarcal, eram, antes de mais nada, devoradores de seus filhos, ou seja, capazes de manifestar a mesma ira da mãe uterina. O mesmo se pode dizer do Javé do Antigo Testamento, sempre pronto a destruir o mundo e que na simpática passagem de Noé tenta auto-limitar esse poder destruidor que anteriormente estava nas mãos de deusas uterinas como Hathor ou Kali...Lembremos ainda que tanto Hathor quanto Kali somente contêm o seu poder ao encontrar um consorte masculino que as limite, no caso de Hathor, um deus que lhe oferece cerveja no lugar de sangue e no caso de Kali, Shiva, que se permite pisar por Kali, que dança sobre seu corpo. Por ser visceralmente destruidora, o que contém e satisfaz essa impetuosidade feminina é um submisso-forte, presente no masculino, daí sempre aparecer nas relações esse tema de mulher-dominadora, homem-dominado, pois é um tema que já manifestou equilíbrio em vários mitos. Observe como Masoch se refere diretamente a Vênus e não a Hécate...

Evidentemente, nas relações pessoais, fatores bem mais complexos que os mitos se manifestam e encontraremos parcerias de homens-dominadores e mulheres-dominadas, como tanto apreciava Sade. Parece-me que o que está se constatando é, sim, a *potencialidade* destrutiva e dominadora de toda mulher, através do arquétipo (modelo) da mãe uterina, presente em *toda* a mulher que tem, ou teve, um útero. A concretização dessa potencialidade, dependerá de outros fatores e escolhas, que dependerão das trilhas de individuação de cada mulher. O que se observa com freqüência, é que ao *experimentar* concretamente o sadomasoquismo, muitas submissas se reconectam com a violência. Entram num ambiente onde a violência e a destruição são consentidas e de alguma forma, seguras. E essa experiência tem um poder liberador (eu diria até, em alguns casos, catártico) da ira da mãe uterina, desse aspecto do feminino bastante recalcado pela cultura patriarcal...

O resgate desse aspecto da personalidade lhes traz a possibilidade de Dominar, na plenitude de todos os aspectos femininos...uma experiência integradora, então gradualmente se "transformam" em Dominadoras(a dominadora sempre esteve ali, como mito da mãe uterina recalcado), como realização desse prazer.
Em seguida, discutiremos a dinâmica da submissão masculina, apenas antecipo que ela tem muito do retorno do homem à essa mesma vida intra-uterina e da construção de seus símbolos de renascimento.

Por hora, basta concluir que a Dominação Feminina foi contida moral e religiosamente por meio de uma limitação legal e mítica ao aborto. A ruptura da energia contida nesse tabu se expressa de forma civilizada nas formas de Dominação Feminina.

3. Raízes do masoquismo na vida uterina e no parto.

Agora precisamos, nem que seja de forma bem precária, tratar do segundo aspecto, que seria o da submissão nos homens, porque nota-se um fenômeno comum em casais sadosmasoquistas, o da passagem de submissa a Dominadora e, também, de Dominador a submisso. O ponto de partida é uma experiência universal, a vida uterina.

Não a experimentamos da mesma forma, mas todos passamos pela vida uterina. Claro que com o avanço da ciência, poderemos um dia pensar no masoquismo dos bebês de proveta: terão eles fetiches por vidros? Gostarão de ser encarcerados em redomas? Nem imagino.

Vimos no item anterior que a mulher tem uma questão aberta com relação ao poder que lhe confere o útero. Porque diferentemente do pênis, externo ao homem (tem até nome próprio: Bráulio, o que mostra quão dissociado é do homem), o útero está no âmago da mulher e representa fisicamente sua essência, que, muito além da maternidade social, é a essência do poder de vida ou morte que está presente na natureza. Porém...todos, mulheres e homens, passamos pela experiência de completa exposição e dependência ante o poder do útero e de sua Senhora, a Grande Mãe que, bem depois, descobrimos ser apenas a nossa mãe. Bem, é verdade, alguns nunca descobrem isso e continuam com A Mãe...mas isso é outra neurose J.

Nus, dependentes, expostos, despossuídos de nós mesmos, fragilizados ante o poder infinito de quem, com um simples comprimido, agulha, cirurgia, injeção poderia, a qualquer tempo, eliminar qualquer chance de nosso futuro. Ela pode nos transformar de possíveis pessoas em restos de tecido misturado com restos de placenta em algum recipiente de lixo hospitalar, em poucos minutos. Não é à toa que, de todos os pecados, o que insiste em permanecer como tal é o aborto. Demolimos a moral sexual (afinal adolescentes de 12/13 anos "ficam" e nenhum pai vai à delegacia dizer que alguém violentou seus filhos...), liberamos o casamento e fizemos do divórcio uma realidade, contam-se os dias para que se descriminalizem as drogas, mas o aborto, ah...o aborto.

O aborto criminalizado é o último bastião da solidariedade que resta na nossa sociedade de formação cristã... todos nós já estivemos lá um dia... desprotegidos, implorando para que aquela grande mãe não resolvesse usar a solução final... Claro que, nascidos e crescidos, gostamos de negar essa dependência, nosso ego inflado e adolescente gosta de repetir que "não pediu para nascer" e nos abismos de depressão acha sempre "melhor não ter nascido". Nada mais falso. Passamos nove meses na *inocência*, no saudável desconhecimento psíquico de que podíamos acabar a qualquer tempo...

Nascer é morrer. Na hora do parto, não tínhamos como saber se aquilo era um parto ou um aborto. Somente o espanto do ar nos pulmões, a luz perturbadora, a proximidade dos conhecidos ruídos abdominais da Grande Mãe nos deram a certeza de que havíamos nascido. A satisfação dessa vitória fruída nos lábios e no morder (sem dentes!) dos seios que traziam enfim, o leite... É mítico: se precisamos renascer, retornamos ao ventre. Jonas ao ventre da baleia, Perséfone no inferno de Hades, Jesus na mansão dos mortos e todos os renascidos e ressuscitados das várias religiões.

De fato, há os que como Grof, acreditam que na raiz do sadomasoquismo, ou ao menos na raiz do fetiche por merda e sangue, está o prazer de conseguir nascer, pois antigamente, dada a falta de preparação da mãe, não raro ela defecava durante o parto, fazendo com que o nascituro associasse o prazer de viver com o aroma de merda e sangue que estava no seu quarto de nascimento. A primeira impressão é a que fica.

Examinem as inúmeras fotos de cenas sadomasoquistas. Imobilização, restrição de movimentos, constrição a espaços exíguos, uma freqüente busca da posição fetal, sem falar em masmorras e cavernas escuras, que dispensam uma óbvia interpretação uterina. Observem como freqüentemente ao ficar de quatro os submissos se curvam sobre o ventre.

No submisso está sempre presente a necessidade de renascer. De sobreviver a uma dura prova, de suportar além do suportável da dor. Isso não tem a ver com a mania masculina de se centrar no desempenho, mas de renascer após uma prova. Submissas femininas também reclamam de não poder suportar mais dor... Ao mesmo tempo, Dominadoras ( e Dominadores) reclamam que dá trabalho dominar. Do quão cansativo é ter que controlar, castigar, nutrir com crueldade as fantasias de seus escravos. Literalmente, amamentam essas crianças dependentes...e se queixam como mães cansadas.

4. Distinção entre submissão masculina e feminina: passagem da submissa a dominadora

Há um momento nessa experiência que divide os grupos de submissos e submissas. E essa divisão acontece quando a submissa percebe que tem, em si, como falamos no item anterior, a questão do poder do útero.

Poderá renascer como "Grande Mãe" e passará a tender à dominação, poderá escolher ser submissa de outra mulher, mas terá a tendência de dominar homens, pois estes não lhe trarão o prazer em lhes ser submissa, pois saberá ter um poder maior que o deles. A Mulher submissa poderá, ainda, entrar em outro mito, que teremos que analisar adiante, quando falarmos da dominação masculina. O tema será o da filha sedutora do Pai, a filha que substitui a Mãe como útero gerador e como amante, que aparece de forma sensual em Elektra, mas também, de forma sutil e moral em Antígona, a filha de Édipo.

Os submissos se descobrirão despossuídos de útero e se deparam com o vazio de identidade. O culto ao pênis é, como lembra Valerie Solanas, uma construção cultural. Lembremos que a "fase fálica" foi proposta por Freud como uma dinâmica do desenvolvimento da psique preponderantemente *masculina*, pois naquele momento, Freud pensava o masculino como antecessor do próprio feminino. A fase fálica é importante para a formação de uma identidade masculina, porém, organicamente, o falo é quase um apêndice, quase um "outro". Enquanto a Mãe pode ver até o feto como uma extensão de si mesma, o pênis é para o homem, antes de tudo um "outro", um "estranho" e, até mesmo, um "desconhecido" (vai saber se esse troço levanta hoje ou não...) e, na melhor das hipóteses, um "companheiro" ou "amigo"...

Observem nosso mundo da ciência: mulheres com serenidade e até certo alívio se livram de um útero físico doentio que não lhes serve, senão lhes prejudica a saúde. Livram-se do útero e do fardo social e cultural nele contido e mantém em si mesmas a essência uterina: o poder da identidade feminina. Poderíamos prescrever a mesma solução para um homem? Uma pura e simples remoção do pênis sem que isso lhe afetasse a identidade masculina? O pênis é o "outro" que dá identidade ao homem, se ele se vai...

5. Masoch como modelo de submisso. Passagem de dominador a submisso.

O submisso percebe o engodo do pênis. Uma identidade que não é a *sua*, mas de uma civilização que cultua o pênis. Um vazio. Natural que sua vivência de submissão passe por dois filtros muitos comuns: a castração simbólica ( a flagelação e a tortura do pênis) e a despersonalização, quando a falta de identidade o aproxima mais dos animais e dos objetos que de uma figura humana como a mulher. O dogplay - ser transformado em cachorro , o ponyplay - ser transformado em cavalo - o ser usado como mesa, cadeira ou capacho, a redução a relação apenas com partes do corpo da mulher, como os pés...

Esses dois filtros são como que métodos para uma outra dinâmica que pode surgir como opção para o submisso: a feminização, forçada ou não. Por incrível que pareça, a melhor coisa para um submisso é saber cuidar de si mesmo. Saber-se dependente da Mulher que o domina, mas não se "embrionar" a ponto de lhe ser quase um parasita. O parasita é o que procura "dominar a partir de baixo", o pequeno tirano edípico, que se faz de dependente para controlar a Grande Mãe.
Estudem com atenção relatos das raras relações 24/7 (24horas por dia, 7 dias por semana) que deram certo entre Dominadora e dominado, verão que o submisso é uma pessoa individuada e adulta e não um infantil emocional. Terá caminhado uma longa trilha de desmontagem da masculinidade produzida culturalmente, com todas as mentiras do patriarcado, para ter *escolhido* renascer sob as ordens de uma Mulher em seu poder uterino.

É o final genial dado por Masoch ao romance de Severin e Wanda: ela percebe que ele está completamente entregue, mas ele ainda não é livre o suficiente para ser completamente submisso, seu masoquismo é ainda uma fuga, no entender de Wanda, uma doença, que fará de Severin um parasita dependente. Severin precisaria viver sua vida, amadurecer, saber do que era e do que não era capaz, enfim tornar-se homem, em toda a dimensão cultural e social dessa palavra, para então poder entregar-se, desmontar esse poder patriarcal diante do fascínio do poder de Wanda, a Vênus...

Severin jovem é o modelo do homem que percebe sua completa dependência e incompletude diante do feminino, mas é inexperiente de si mesmo...acredita que será alguém pelo domínio de Wanda...O velho Severin, que é, agora, um dominador, cultua o feminino do belo quadro de Wanda que o tem a seus pés, ela sempre o teve ali e nunca deixou de tê-lo, ele ainda está a seus pés, porém, viveu a vida, enfrentou o mundo da sociedade e da cultura, fez-se homem como dele se esperava, para poder se desvestir desse papel...

Só é possível entregar aquilo que se tem.

Só é possível renascer de uma vida já vivida. Só é possível permitir-se a submissão a quem, de algum modo, já provou em si mesmo o poder. Assim, não admira que um dominador possa fazer a trajetória rumo à submissão. Pois não há um abismo, senão a mesma busca de sentido que é o enigma do masculino...

6. Pressuposto da dominação masculina: o caráter social do poder do falo.

Como vimos antes, a questão feminina está em como lidar com o poder do útero, que já é naturalmente presente na mulher, como poder de vida ou morte sobre o outro, que pode ser vivido simbolicamente numa relação sm, onde o alívio da Dominadora seria o de se sentir Senhora Absoluta de outrem e, ainda assim, não matá-lo.

Recordem de Vênus das Peles, como Wanda conduz Severin a ponto de poder matá-lo sem que fosse punida se o fizesse... O poder masculino, representado pelo falo - sempre "outro" - emerge da dinâmica social e cultural de convivência.
Diferentemente do útero, que é uma questão posta no corpo, o poder fálico precisa de expressão social, precisa "se exibir". Isso vai desde a divertida brincadeira de "mostrar o pipi", passa por tormentosas medidas em centímetros (atire a primeira pedra quem não levou régua escolar para o banheiro na adolescência) para se consolidar e se difundir em objetos de status para os quais se "difunde" o poder fálico.

Esse caráter "social" do poder masculino dá uma cor diferente ao dominador. Deixamos agora o cenário de Masoch e adentramos ao cenário de Sade. Enquanto para Masoch há a importância do contrato e do privado(oculto), para Sade predomina a Sociedade (do Crime) e seu caráter público-institucional ("exibido"). Deste modo, Sade desenha o modelo da dominação masculina e, nesse modelo, o dominador transita por diferentes papéis sociais, seja de padre, seja de patrão (Senhor, Rei), que até etmologicamente desembocam no primeiro papel fundamental masculino: pai. 6. O incesto como tabu e eixo da dominação masculina. Indo diretamente ao ponto, o tema chave da dominação masculina será, em alguma medida, uma forma de incesto.

O prazer da submissa nasce desde o momento em que ela cuidadosamente escolhe um "novo" pai, não mais o biológico, mas que terá do pai original a projeção do poder que ela busca e que ela teme, na dúvida se ela merecerá o falo para que seu útero desperte (daí o que vimos antes: ao despertar o poder do útero, o poder do falo provoca às vezes o emergir de uma dominadora). Ela será a escrava-puta, a filha "do outro", que tinha dignidade mas que, descuidada, foi aprisionada e agora é castigada e simplesmente usada. Para o dominador, é o incesto com a filha "do outro". Preso sempre pelas normas sociais que justificam seu poder fálico, o homem se vê, repentinamente, pela entrega e presa da submissa em suas mãos, livre dos limites morais, podendo exercer e viver sob o império do imediatismo, inconseqüência, narcisismo e, sobretudo, voracidade dos desejos masculinos...
Da escrava-puta não se espera família, apenas a satisfação do instinto. Por um outro caminho, diferente do submisso, a submissa adentra à despersonalização: cadela, égua, vaca...animais domesticados e reprodutores por excelência, mas numa relação que lhe nega a reprodução. Compete ao dominador a difícil tarefa de negar o útero e seu poder.

Observem como é freqüente na manipulação e disciplina da submissa o treinamento anal. Diferente do homem, que é levado à feminização; a submissa é liberta do seu "fardo de poder" transferin do o prazer genital-uterino para o anal. Não há masculinização forçada, mas ela é despersonalizada como mulher: ao ter prazer anal, ela não é distinta de um homem (entre outros motivos mais dolorosos, essa é *uma* das razões latentes que leva mulheres baunilha a recusar sexo anal). A escrava-puta é o modelo favorito de Sade, pois qualquer traço de moralidade e virtude é severamente punido.

Outro tema é o da relação patrão-empregada. Tema mais sutil que o da escrava-puta, onde o Dominador confere, de início, algum reconhecimento de dignidade da submissa. Nesse tema se encaixam vários jogos psicológicos em que a submissa vai tendo comprovada, sistematicamente, sua dependência e incompetência, descendo, nos casos mais graves ao castigo físico. No nosso modelo patriarcal-colonial, diríamos que a escrava-puta é a da senzala, e a "empregada" é a mucama da Casa-Grande. Pode estar no leito de Senhora ou no tronco...

Ainda é o tema do incesto com "filha do outro", mas há o prazer em elaborar mais o ritual. Os ritos goreans às vezes são mais dessa escrava-empregada, por sua ritualização que adia a violência explícita que se abate, inevitavelmente, sobre a escrava-puta... Os dois temas anteriores derivam do tema fundamental: o incesto com a filha. O incesto com a filha é um tabu masculino que tem seu paralelo no feminino tabu do aborto.

Os dominadores, quando se atribuem títulos, raramente usam Deus ou Pai (mesmo em inglês). Preferem os institucionais Senhor, Dom, Mr, Sir... o que é uma injustiça para com o nosso patriarcal, colonial e brasileiro "Painho"...

A dificuldade aqui - tal como nas dominadoras que evitam o uso de Mãe como prenome - é a de não tornar explícito o que deve ser implícito. Não escancarar o apelo velado do simbólico. Há em algumas relações Dominador-submissa a eclosão de um afeto. O homem, que poderia simplesmente se apaixonar, antepõe a essa paixão a crueldade - novamente Sade.

Seria o homem livre a ponto de romper todos os liames morais e usar a própria filha como uma escrava-puta? Se esse homem encontrasse a submissa "ideal", a que desejasse ser recebida como filha e ultrajada pelo pai, pela sedução de sua simples submissão... essa seria - muitas vezes é - a combinação explosiva.

7. Dominação masculina e submissão feminina: patriarcalismo e rebeldia.

Enquanto é próprio da dinâmica feminina a intuição e a síntese, a dinâmica masculina se fundamenta na previsibilidade e análise. Uma Dominadora entra na cozinha e volta de lá com a primeira colher de pau que encontrou. O Dominador, por outro lado, passa horas estudando e montando a unidade de choque elétrico na tensão exata para ferir e não machucar sua sub...

Se recordarmos a precisão milimétrica e paciente dos laços e nós do shibari, compreenderemos a ansiedade masculina pelo desempenho, pela perfeição, ansiedade que encontra seu conforto e sua catarse na submissa, que comporta-se como boa filha, obediente, disciplinada, higiênica, para, num instante, ser jogada ao chão e usada como animal pior que a escrava-puta... Disciplina e catarse. Ordem e caos. Esse é o anseio do pai rebelde contra a civilização que o instituiu, cuja rebeldia máxima é estuprar a filha e ver em seus olhos não mais que prazer... A Sociedade do Crime de Sade é a ordem a serviço da perversão, a civilização a serviço da violência...

O fascínio da submissa em ser essa filha pode ser compreendido por dois mitos: a submissa física, que corresponderia a Elektra, o amor ao pai como carne do pai e carne da filha-amante-esposa (sim, ela chegaria novamente ao útero, o incesto que procria). De outro lado, a subserviência completa ao pai, vivida no plano afetivo moral, como Antígona, que enfrenta as leis e a civilização para dar sepultura digna a seu irmão e, simbolicamente, a seu pai, Édipo e seus ancestrais. O chicote ainda descerá sobre o corpo dessa submissa moral, mas a dor será sempre a experiência de liberdade ante a civilização. A liberdade de Antígona se rebela ante a civilização representada pelas leis de Creonte, seu tio, que não se esquece de castigar-lhe devidamente a virtude.

Poderíamos pensar que o tema Dominador-submissa fosse o mais conservador, por se fundamentar em regras vigentes do patriarcalismo. Isso é falso, ao menos em parte. Dominador e submissa pervertem o patriarcalismo, fundado no princípio de "foder a filha dos outros" e "não deixar que fodam minha filha".

Ao se passar por filha e escrava-puta, a submissa abre ao Dominador a perspectiva do incesto, da corrupção do eixo de toda a moral patriarcal, que deu tudo ao homem apenas para que ele não fodesse as próprias filhas. Quando amadurecida e bem sucedida, a relação Dominador-submissa é a denúncia escancarada da insuficiência da civilização: o tesão vence a ordem, o pai fode a filha, ela consente e tem orgasmos...

8. Homoerotismo masculino e sadomasoquismo.

A origem do homem é bastante controversa. Quando se encontram restos de ancestrais humanos, encontram-se apenas restos de fêmeas. Alguns, não sem o devido bom humor lembram que, afinal, "pênis não tem osso", porém, não é só pelo pênis, mas também pelas dimensões ósseas, notadamente a adaptação da bacia ao parto, que nos fazem sugerir que determinados ossos são femininos...
Seja por esse aspecto da paleontologia, seja pelo aspecto já anteriormente abordado da experiência comum de todos termos passado por um útero feminino - e, portanto, termos sido todos ao menos mulheres *em parte* - há em todos uma memória feminina, pois todos já estivemos, concreta e simbolicamente, "contidos no feminino".

Uma visão bastante procriativa da sexualidade insistiria em chamar as relações entre iguais de relação homossexual. Esse é o uso corrente, que, entretanto, encobre o fato de que essa é uma visão procriativa e sexista da vivência sexual, bem próxima do determinismo científico: somos seres determinados pela natureza e contra ela lutamos por meio da cultura.

A refutação - ao menos da versão ingênua dessa hipótese - pode ser encontrada em qualquer sala de aula do ensino médio.

Procure por alguns estereótipos de garoto nessa sala: um que não gosta de jogar bola, tem na sala duas ou três amigas que mais o protegem e o têm mais por colega do que como possível "ficante" e outro, que espera ansioso o final da aula de educação física, onde, no vestiário, muitas vezes é passivo para os demais colegas, usa brincos, sandálias e quando provocado, imita Vera-Verão, de saudosa memória, rodando a baiana.

Lá estão eles, sendo bombardeados pela tempestade de testosterona da adolescência masculina e lidando com a contradição do determinismo biológico: um está identificado com as mulheres, como um igual; outro, atraído pelos homens e buscando atraí-los explicitando já na adolescência sua "homossexualidade", assumidamente o "viado" da turma.

Há um terceiro, que nós não vemos: o que tem um aspecto socialmente masculino, que como as colegas do primeiro, o protege das gozações dos outros garotos e que, nas festas do segundo, fica com ele, num quarto, no banheiro da escola e que, confuso, se sente atraído mesmo pelas meninas...

Esses três garotos, presentes em praticamente todas as escolas do país, jogam por terra o determinismo biológico da sexualidade. Para que caibam nos rótulos dessa visão sexista, na vida adulta, o primeiro será chamado de enrustido, o segundo de assumido, o terceiro de bissexual.

A falsidade desses rótulos está em aplicá-los apenas aos que se interessam, em algum momento, pelos iguais.

O olhar um pouco mais seletivo sobre essa mesma classe de adolescentes encontraria entre os "heterossexuais" as mesmas categorias: enrustidos, assumidos e bissexuais. Mas, como aos olhos da cultura, a heterossexualidade "não é problema", essas três categorias aplicadas ao heteroerotismo, passam desapercebidas. Ou, se algum garoto for heteroerótico e enrustido, teremos a triste confusão de achar que, por ele ser enrustido, é homoerótico, o que é um desastre freqüente, pois buscará continuamente os parceiros errados.

A garota heteroerótica enrustida é tida por "normal", pois espera-se na sociedade patriarcal que a mulher seja o mais frígida possível. Nesse caso, se ela for heteroerótica assumida é que passará por "biscate", por "puta" da turma e até, por "sapatão" mesmo que nunca chegue perto de outra garota.

Essa digressão toda vem para que coloquemos de lado o determinismo biológico e voltemos nossa atenção para o fato de que a sexualidade, e não apenas o gênero, é também uma construção cultural.

Livres da perspectiva procriativa, o que temos são corpos com capacidade de obter estímulos que produzem prazer. Que estímulos são esses e o significado do prazer é tarefa para os sexólogos e "psicocoisicos" (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas...) discutir. Aos demais, basta sentir.

O par "escolha do estímulo-significado do prazer" compõe a chave inicial do que chamaremos de erotismo, o conjunto de fatores que nos leva a uma vivência do prazer corporal que produz uma reação física determinada, o orgasmo.
Infelizmente não temos espaço aqui para discutir essas definições de orgasmo e erotismo, que têm lá seus defeitos, mas que estamos usando para enfatizar bem o que é o prazer corporal: uma reação obtida de estímulos *e* os significados que atribuímos a essa reação (de nada adianta agora a "mecânica" do orgasmo, dissociada de sua significação).

Gostaria que me desculpassem por dar somente agora essa definição, mas a construção desses textos foi absolutamente hipertextual: pulamos de um assunto a outro, sem a linearidade que a lógica textual exige.

Pela definição acima vimos que o que fizemos, em todos os outros textos foi discutir o *significado* da experiência de prazer corporal obtida ao se infligir ou receber dor ou simplesmente dominar e ser dominado, em diferentes dinâmicas sadomasoquistas, a partir das construções culturais mais primitivas, o ser mãe, o ser pai - transmutando, mas não superando completamente a perspectiva procriativa, dado que isso beira o impossível.

Compreendido o que é o erotismo, para fins desse texto :), podemos falar em homoerotismo, heteroerotismo e pan-erotismo, sado-erotismo, maso-erotismo, verbo-erotismo (um dos meus fetiches, por sinal....:)).

Em particular, como a dinâmica erótica masculina é definida, no patriarcalismo, em sua identidade, por construções culturais - lembremos mais uma vez a interioridade do útero e a exterioridade do pênis - a dinâmica homoerótica em geral e a dinâmica homerótica sadomasoquista, em particular, passarão por análise semelhante à da dominação masculina heteroerótica, fortemente baseada em *papéis sociais*, para, então, desembocar nos aspectos físico-corporais.

9. Civilização e selvageria como tensões no homoerotismo masculino.

Nos dois casos anteriores, dominação feminina e dominação masculina, lidamos com papéis derivados dos aspectos procriativos - mãe e pai - e vimos que o sadomasoquismo extraía, em ambos os casos, muito de seu significado erótico da ruptura, ao menos simbólica, de dois tabus: o aborto e o incesto. É verdade que, embora seja possível retornar à temática do incesto, agora sob a relação pai-filho, essa temática só explicaria, parcialmente, o significado do sadomasoquismo homoerótico, como veremos adiante.

Abro um parênteses (na esperança de evitar nova seção!) para mostrar aos alternantes (switchers) mais aflitos que o tabu do incesto é o ponto de partida para a explicação dessas relações, quando visto nas relações eróticas irmã-irmão. Por alternar os papéis de dominação e submissão, esses parceiros incluem uma pausa lúdica que acrescenta fantasia sobre a fantasia: "Agora você é o Pai e me domina", "Agora eu sou a Mãe e te domino"... como nas brincadeiras de faz-de-conta da infância. Ao assumir o papel de "Pai", o irmão consuma o incesto; ao assumir o papel de "Mãe", a irmã adentra ao poder do útero... e assim segue a relação.
Também devo indicar que não me sinto plenamente em condições de analisar o sadomasoquismo homoerótico feminino, pois creio que essa análise depende de alguma vivência direta ou indireta, que não possuo. Mesmo assim, adiante farei algumas indicações.

No caso do homoerotismo, surpreende o seguinte fato: não há que lidar simbolicamente com um tabu, porque o tabu já está explícito, há um tabu sobre a "homossexualidade", e, em princípio, o sadomasoquismo não se constitui numa forma simbólica para a expressão homoerótica, tal como acontece com o incesto e o aborto. Ou seja, no caso do homoerotismo, a "tensão" do tabu já está rompida quando se dá a relação. Não é a relação que dará a vivência "velada" do tabu.
Também é verdade que, enquanto nossa cultura tem um repertório de papéis bem definidos nas relações heteroeróticas que permitem uma clareza na hora de "romper" com esses papéis, essa mesma cultura não propõe um repertório padrão para a relação homoerótica, ou seja, o simples acontecer de uma relação homoerótica, já é, por si, a ruptura. O que vamos encontrar nas relações homoeróticas é um padrão de dispersão de formas e papéis. Tentaremos aqui achar elementos comuns nesses vários papéis que vão desde uma relação incestuosa pai-filho (um padrão que aparece em alguns pares de gays-ursos) até à relação de completa despersonalização do outro em objeto (os glory-holes, paredes onde um parceiro passa seu pênis sem saber se há outro parceiro do outro lado e quem é ele).

Uma tendência inquietante do sadomasoquismo homoerótico masculino (abreviarei para SHM) é que homens entre homens rompem facilmente com a civilização e retornam à selvageria. Isso vai desde a queixa dos parceiros pela instabilidade e traições nos relacionamentos (o casamento é uma instituição civilizada) e chega até a pratica do sadomasoquismo, muitas vezes coletiva ou impessoal, em sessões de fisting ou spanking que mais parecem uma matilha reunida numa darkroom do que uma organizada play-party. Há o fato da expectativa de, entre homens, se esperar uma maior resistência à dor, resquício machista ou patriarcal. Porém a prática sadomasoquista toma a relação Senhor-escravo a partir da memória da relação de Guerra: Guerreiro-prisioneiro. O destino do guerreiro derrotado é o de ser escravo. Ao poupar-lhe a vida, o vitorioso o aprisiona numa dívida sem fim... e é assim, em última análise, que Senhor e escravo se posicionam. Entre esses guerreiros, a civilização está rompida e o caminho da selvageria e da violência sem limites está aberto. O destino da punição de um prisioneiro deveria ser o canibalismo. E eis aí o tabu envolvido na relação SHM. Cabe ao mestre "comer" de formas simbólicas e físicas o escravo que o destino lhe entrega nas mãos. É uma relação de dominação diversa da heteroerótica. Senhora-escravo se relacionam por um útero e seu poder de vida e morte. Senhor-escravo se relacionam pela guerra, pelo aprisionar e devorar o outro, o igual e o diferente, ao mesmo tempo, há apenas o elemento comum da face da morte, em ambos os casos.

A coletividade e impessoalidade da guerra fazem com que as ligações Senhor-escravo sejam bem mais fracas do que os pares heteroeróticos, pois seu pressuposto é o curto prazo. O fim da guerra, a decisão de quem vence e quem é derrotado, o espólio, o estupro e o canibalismo. Fim.

Nada de relações muito duradouras, como acontece inclusive no homoerotismo "baunilha". Esse tema, selvagem e violento, é repetido à exaustão até mesmo nos filmes de SHM. Impressiona o apego do masculino ao desempenho. O escravo se esforça por se superar na tolerância a dor. Um guerreiro que quer ser provado. O Mestre se esforça por se superar na crueldade, na exibição do domínio, em deixar claro quem domina... Sobre esse tema intenso e de curta duração, se constrói, à semelhança da relação Mestre-empregada, uma relação Senhor-servo, de mais longa duração. O caráter servil é diferente do prisioneiro condenado ao canibalismo, Já é um indício de civilização, de relação que se institui em torno à propriedade. Porém, a violência física será sempre bem mais explícita e as violações bem mais fortes do que as que cercam a sub-empregada ou a sub-escrava-puta. Enquanto uma Dominadora castra para que o filho não a violente, o Mestre castra apenas para exibir poder, para provocar mais uma morte simbólica. Castrado, mas não morto, o prisioneiro passa a servo e mantém a relação de subserviência ao mestre. Observem que, curiosamente, no estágio mais próximo da civilização, a relação pai-filho, que é por si complicadíssima (Édipo, lembrem-se, *matou* o próprio pai), *diminui* a intensidade SHM.

A temática ursina - os gays ursos - é antes de tudo uma temática de proteção, de afeto, de tudo o que o patriarcalismo vetou aos pais e filhos. Nesse caso, o carinho é a ruptura do tabu de que "homem não pode ser afetivo com homem". Notem como na relação de incesto Pai-filha, acontecia o oposto: castigar a filha, discipliná-la, chicoteá-la eram formas simbólicas do estupro paterno desejado pela filha, que muitas vezes o Senhor consuma na serva desejosa. Agora, entre pai-filho, abre-se uma via de afeto, que quase distancia essa experiência da dominação SHM, por se enojar da violência que a cultura entende como "masculina".

10. Paradigmas(?) do SH.

Além do chocante e trágico "caso Édipo", devemos evocar o sempre lembrado amor entre Davi e Jônatas, que não impediu que, ao final, Davi levasse Jônatas à morte (afinal estavam em lados opostos de uma guerra). Poderíamos lembrar de Átila, o Huno e o não menos memorável Vlad, o empalador, predecessor de ninguém menos que Drácula. Embora os delírios do amor romântico façam de Drácula um mordedor de pescoços femininos, Vlad se alegrava em empalar guerreiros pelos campos...
Evidentemente, o primeiro paradigma é do próprio guerreiro canibal.

Na medida em que chegamos próximos à civilização, os homens se "des-hominizam" e se tornam ursos, e o paradigma ursino é encontrado em infinitas e bem-humoradas parcerias masculinas que negam essa selvageria canibal (o paradoxo de ser urso e não-selvagem :) ) que divertidamente (e por absoluta falta de outro bom exemplo) poderíamos chamar de "Paradigma Zé Colmeia e Catatau", fundamentado na amizade, na definição da liderança por deixar o outro ser quem é.

A alusão ao guerreiro canibal nos faria lembrar o nazismo, mas o nazismo representa um estágio de doença da própria civilização: da impessoalidade da matilha coletiva o nazismo implantou a impessoalidade do exército do Estado. Da catarse da orgia canibal restou apenas um "civilizado" a cumprir ordens, sem prazer de matar, matar burocraticamente, assar e não comer. O nazismo foi a negação da volúpia e do prazer selvagem da guerra para torná-la um produto industrial, racional e insosso. É o paradigma anti-erótico por excelência.

Devemos evocar a negação ursina da selvageria-mortandade em um outro fato histórico sempre lembrado: convidado a uma caçada de ursos, o Presidente Ted Roosevelt não conseguiu matar nenhum. Os puxa- sacos, prevendo que isso talvez acontecesse, deixaram um pequeno urso acorrentado, para que o presidente pudesse matá-lo. Ted recusou-se a cometer essa atrocidade, por julgá-la covarde e, por essa razão, em inglês, os ursinhos de pelúcia são chamados de "Teddys".
"Não matar quem é incapaz de combater" e "devorar apenas quem poderia me vencer" são os pilares da ética SHM em qualquer de seus modelos...pois esses dois princípios selvagens definem os "iguais" de que fala o homoerotismo masculino.

É provável que o sadomasoquismo homoerótico feminino siga os moldes semelhantes aos do "guerreiro canibal", sucesso de guerreias como Xena fazem a cabeça de muitas dominadoras e suas escravas. Porém, pela possibilidade de passagem da submissa a dominadora, o sadomasoquismo homoerótico feminino - SHF - poderia também ter uma característica de iniciação: os rituais de preparação de uma mulher para que ela pudesse chegar a exercer o seu poder uterino. A mãe que faz a filha descer aos infernos, como aconteceu a Perséfone, pode ser uma boa indicação, mas realmente isso demanda mais estudo e mais relatos das mulheres que vivem essa experiência.

11. Dos ruídos da masmorra.

Evidentemente, as relações concretas são bem mais complexas que o que pudemos discutir. Daí o caráter sugestivo e não conclusivo desta reflexão. Os temas estão presentes mas percebê-los ou não, vivê-los ou não depende do que buscamos no sadomasoquismo. O mais das vezes nossa condição é tão angustiante, que bastam-nos o espancar ou o ser espancados para que tudo se aquiete em nosso interior. Seria bom que cessassem os dicursos e tudo o que pudéssemos ouvir fossem chicotes e gemidos...mas quando tudo se aquieta na masmorra, inevitavelmente, conversamos...


Por #dumuz#_RF