1. Introdução
Essa série de "análises"
foi iniciada a partir de uma pergunta: Por que
várias submissas, ao longo do tempo, se
transformavam em dominadoras? Por que essa passagem
do masoquismo ao sadismo?
Disso resultou a discussão dos itens 1
e 2, nos quais surgiu a tese de que as experiências
sadomasoquistas tinham como um tema original a
ruptura de um tabu estabelecido pela civilização.
Essa "tese" se fundamenta na necessidade
contínua e dupla do sadomasoquismo de ritualizar
e transgredir em suas formas de expressão.
O resultado é um texto completamente desigual
e heterogêneo. Não foi resultado
de um plano ou um estudo mas uma reflexão
feita diante do teclado, "pensando em voz
alta".
O objetivo é ser muito mais um texto sugestivo
do que científico. Mais retórico,
no sentido de querer fixar motivações,
do que lógico, ou seja, nos prover de demonstrações.
Não é o caso de agradar ou aprovar,
mas apenas, pensar sobre esses tabus...
2. Dominação feminina: de submissa
a dominadora
Mesmo a mais masoquista das mulheres poderá
se deparar com a incômoda questão:
o poder de vida ou morte sobre o embrião/feto/criança
em seu útero, que se concretiza no aborto.
Essa experiência ou, ao menos, para as que
nunca engravidaram, a possibilidade biológica
dessa experiência, remetem à mulher
diretamente ao poder de criar e destruir concretamente
outra pessoa, coisa que as pessoas do sexo masculino
só podem experimentar simbolicamente, por
meio da cultura (guerra, nesse caso, é
cultura).
São dois extremos - o amor supremo que
pode dar a vida, uma ira suprema que pode dar
a morte (não falemos do aborto no sentido
moral ou ético agora, porque a ética
e a moral já pertencem à civilização).
Esses extremos são vividos pela mulher
de uma forma muito concreta, o que as capacita,
visceralmente e naturalmente, a um domínio
que exerce o poder sem destruir, mas mantendo
a destruição sempre possível.
Sade é um exemplo de dominador que dificilmente
se tornaria submisso. Entretanto, seu sadismo
:) já é uma construção
cultural. Nele permanece em aberto a possibilidade
de que muitos homens sejam dominadores e assim
o permaneçam, pois a dominação
masculina é, em grande parte, resultante
da construção da paternidade a partir
do poder fálico, que serviu de contraponto
e equilíbrio ao possível delírio
das mães furiosas e uterinas, mas foi na
verdade, uma trabalhosa e complexa elaboração
cultural, dado que o falo, por si, não
tem o poder destruidor do útero, que pode
*por si mesmo* abortar a vida... (para além
do desejo cultural da mãe, como no caso
do aborto natural).
Lembremos que tanto Urano como Saturno, já
deuses de uma era patriarcal, eram, antes de mais
nada, devoradores de seus filhos, ou seja, capazes
de manifestar a mesma ira da mãe uterina.
O mesmo se pode dizer do Javé do Antigo
Testamento, sempre pronto a destruir o mundo e
que na simpática passagem de Noé
tenta auto-limitar esse poder destruidor que anteriormente
estava nas mãos de deusas uterinas como
Hathor ou Kali...Lembremos ainda que tanto Hathor
quanto Kali somente contêm o seu poder ao
encontrar um consorte masculino que as limite,
no caso de Hathor, um deus que lhe oferece cerveja
no lugar de sangue e no caso de Kali, Shiva, que
se permite pisar por Kali, que dança sobre
seu corpo. Por ser visceralmente destruidora,
o que contém e satisfaz essa impetuosidade
feminina é um submisso-forte, presente
no masculino, daí sempre aparecer nas relações
esse tema de mulher-dominadora, homem-dominado,
pois é um tema que já manifestou
equilíbrio em vários mitos. Observe
como Masoch se refere diretamente a Vênus
e não a Hécate...
Evidentemente, nas relações pessoais,
fatores bem mais complexos que os mitos se manifestam
e encontraremos parcerias de homens-dominadores
e mulheres-dominadas, como tanto apreciava Sade.
Parece-me que o que está se constatando
é, sim, a *potencialidade* destrutiva e
dominadora de toda mulher, através do arquétipo
(modelo) da mãe uterina, presente em *toda*
a mulher que tem, ou teve, um útero. A
concretização dessa potencialidade,
dependerá de outros fatores e escolhas,
que dependerão das trilhas de individuação
de cada mulher. O que se observa com freqüência,
é que ao *experimentar* concretamente o
sadomasoquismo, muitas submissas se reconectam
com a violência. Entram num ambiente onde
a violência e a destruição
são consentidas e de alguma forma, seguras.
E essa experiência tem um poder liberador
(eu diria até, em alguns casos, catártico)
da ira da mãe uterina, desse aspecto do
feminino bastante recalcado pela cultura patriarcal...
O resgate desse aspecto da personalidade lhes
traz a possibilidade de Dominar, na plenitude
de todos os aspectos femininos...uma experiência
integradora, então gradualmente se "transformam"
em Dominadoras(a dominadora sempre esteve ali,
como mito da mãe uterina recalcado), como
realização desse prazer.
Em seguida, discutiremos a dinâmica da submissão
masculina, apenas antecipo que ela tem muito do
retorno do homem à essa mesma vida intra-uterina
e da construção de seus símbolos
de renascimento.
Por hora, basta concluir que a Dominação
Feminina foi contida moral e religiosamente por
meio de uma limitação legal e mítica
ao aborto. A ruptura da energia contida nesse
tabu se expressa de forma civilizada nas formas
de Dominação Feminina.
3. Raízes do masoquismo na vida uterina
e no parto.
Agora precisamos, nem que seja de forma bem precária,
tratar do segundo aspecto, que seria o da submissão
nos homens, porque nota-se um fenômeno comum
em casais sadosmasoquistas, o da passagem de submissa
a Dominadora e, também, de Dominador a
submisso. O ponto de partida é uma experiência
universal, a vida uterina.
Não a experimentamos da mesma forma, mas
todos passamos pela vida uterina. Claro que com
o avanço da ciência, poderemos um
dia pensar no masoquismo dos bebês de proveta:
terão eles fetiches por vidros? Gostarão
de ser encarcerados em redomas? Nem imagino.
Vimos no item anterior que a mulher tem uma questão
aberta com relação ao poder que
lhe confere o útero. Porque diferentemente
do pênis, externo ao homem (tem até
nome próprio: Bráulio, o que mostra
quão dissociado é do homem), o útero
está no âmago da mulher e representa
fisicamente sua essência, que, muito além
da maternidade social, é a essência
do poder de vida ou morte que está presente
na natureza. Porém...todos, mulheres e
homens, passamos pela experiência de completa
exposição e dependência ante
o poder do útero e de sua Senhora, a Grande
Mãe que, bem depois, descobrimos ser apenas
a nossa mãe. Bem, é verdade, alguns
nunca descobrem isso e continuam com A Mãe...mas
isso é outra neurose J.
Nus, dependentes, expostos, despossuídos
de nós mesmos, fragilizados ante o poder
infinito de quem, com um simples comprimido, agulha,
cirurgia, injeção poderia, a qualquer
tempo, eliminar qualquer chance de nosso futuro.
Ela pode nos transformar de possíveis pessoas
em restos de tecido misturado com restos de placenta
em algum recipiente de lixo hospitalar, em poucos
minutos. Não é à toa que,
de todos os pecados, o que insiste em permanecer
como tal é o aborto. Demolimos a moral
sexual (afinal adolescentes de 12/13 anos "ficam"
e nenhum pai vai à delegacia dizer que
alguém violentou seus filhos...), liberamos
o casamento e fizemos do divórcio uma realidade,
contam-se os dias para que se descriminalizem
as drogas, mas o aborto, ah...o aborto.
O aborto criminalizado é o último
bastião da solidariedade que resta na nossa
sociedade de formação cristã...
todos nós já estivemos lá
um dia... desprotegidos, implorando para que aquela
grande mãe não resolvesse usar a
solução final... Claro que, nascidos
e crescidos, gostamos de negar essa dependência,
nosso ego inflado e adolescente gosta de repetir
que "não pediu para nascer" e
nos abismos de depressão acha sempre "melhor
não ter nascido". Nada mais falso.
Passamos nove meses na *inocência*, no saudável
desconhecimento psíquico de que podíamos
acabar a qualquer tempo...
Nascer é morrer. Na hora do parto, não
tínhamos como saber se aquilo era um parto
ou um aborto. Somente o espanto do ar nos pulmões,
a luz perturbadora, a proximidade dos conhecidos
ruídos abdominais da Grande Mãe
nos deram a certeza de que havíamos nascido.
A satisfação dessa vitória
fruída nos lábios e no morder (sem
dentes!) dos seios que traziam enfim, o leite...
É mítico: se precisamos renascer,
retornamos ao ventre. Jonas ao ventre da baleia,
Perséfone no inferno de Hades, Jesus na
mansão dos mortos e todos os renascidos
e ressuscitados das várias religiões.
De fato, há os que como Grof, acreditam
que na raiz do sadomasoquismo, ou ao menos na
raiz do fetiche por merda e sangue, está
o prazer de conseguir nascer, pois antigamente,
dada a falta de preparação da mãe,
não raro ela defecava durante o parto,
fazendo com que o nascituro associasse o prazer
de viver com o aroma de merda e sangue que estava
no seu quarto de nascimento. A primeira impressão
é a que fica.
Examinem as inúmeras fotos de cenas sadomasoquistas.
Imobilização, restrição
de movimentos, constrição a espaços
exíguos, uma freqüente busca da posição
fetal, sem falar em masmorras e cavernas escuras,
que dispensam uma óbvia interpretação
uterina. Observem como freqüentemente ao
ficar de quatro os submissos se curvam sobre o
ventre.
No submisso está sempre presente a necessidade
de renascer. De sobreviver a uma dura prova, de
suportar além do suportável da dor.
Isso não tem a ver com a mania masculina
de se centrar no desempenho, mas de renascer após
uma prova. Submissas femininas também reclamam
de não poder suportar mais dor... Ao mesmo
tempo, Dominadoras ( e Dominadores) reclamam que
dá trabalho dominar. Do quão cansativo
é ter que controlar, castigar, nutrir com
crueldade as fantasias de seus escravos. Literalmente,
amamentam essas crianças dependentes...e
se queixam como mães cansadas.
4. Distinção entre submissão
masculina e feminina: passagem da submissa a dominadora
Há um momento nessa experiência
que divide os grupos de submissos e submissas.
E essa divisão acontece quando a submissa
percebe que tem, em si, como falamos no item anterior,
a questão do poder do útero.
Poderá renascer como "Grande Mãe"
e passará a tender à dominação,
poderá escolher ser submissa de outra mulher,
mas terá a tendência de dominar homens,
pois estes não lhe trarão o prazer
em lhes ser submissa, pois saberá ter um
poder maior que o deles. A Mulher submissa poderá,
ainda, entrar em outro mito, que teremos que analisar
adiante, quando falarmos da dominação
masculina. O tema será o da filha sedutora
do Pai, a filha que substitui a Mãe como
útero gerador e como amante, que aparece
de forma sensual em Elektra, mas também,
de forma sutil e moral em Antígona, a filha
de Édipo.
Os submissos se descobrirão despossuídos
de útero e se deparam com o vazio de identidade.
O culto ao pênis é, como lembra Valerie
Solanas, uma construção cultural.
Lembremos que a "fase fálica"
foi proposta por Freud como uma dinâmica
do desenvolvimento da psique preponderantemente
*masculina*, pois naquele momento, Freud pensava
o masculino como antecessor do próprio
feminino. A fase fálica é importante
para a formação de uma identidade
masculina, porém, organicamente, o falo
é quase um apêndice, quase um "outro".
Enquanto a Mãe pode ver até o feto
como uma extensão de si mesma, o pênis
é para o homem, antes de tudo um "outro",
um "estranho" e, até mesmo, um
"desconhecido" (vai saber se esse troço
levanta hoje ou não...) e, na melhor das
hipóteses, um "companheiro" ou
"amigo"...
Observem nosso mundo da ciência: mulheres
com serenidade e até certo alívio
se livram de um útero físico doentio
que não lhes serve, senão lhes prejudica
a saúde. Livram-se do útero e do
fardo social e cultural nele contido e mantém
em si mesmas a essência uterina: o poder
da identidade feminina. Poderíamos prescrever
a mesma solução para um homem? Uma
pura e simples remoção do pênis
sem que isso lhe afetasse a identidade masculina?
O pênis é o "outro" que
dá identidade ao homem, se ele se vai...
5. Masoch como modelo de submisso. Passagem
de dominador a submisso.
O submisso percebe o engodo do pênis. Uma
identidade que não é a *sua*, mas
de uma civilização que cultua o
pênis. Um vazio. Natural que sua vivência
de submissão passe por dois filtros muitos
comuns: a castração simbólica
( a flagelação e a tortura do pênis)
e a despersonalização, quando a
falta de identidade o aproxima mais dos animais
e dos objetos que de uma figura humana como a
mulher. O dogplay - ser transformado em cachorro
, o ponyplay - ser transformado em cavalo - o
ser usado como mesa, cadeira ou capacho, a redução
a relação apenas com partes do corpo
da mulher, como os pés...
Esses dois filtros são como que métodos
para uma outra dinâmica que pode surgir
como opção para o submisso: a feminização,
forçada ou não. Por incrível
que pareça, a melhor coisa para um submisso
é saber cuidar de si mesmo. Saber-se dependente
da Mulher que o domina, mas não se "embrionar"
a ponto de lhe ser quase um parasita. O parasita
é o que procura "dominar a partir
de baixo", o pequeno tirano edípico,
que se faz de dependente para controlar a Grande
Mãe.
Estudem com atenção relatos das
raras relações 24/7 (24horas por
dia, 7 dias por semana) que deram certo entre
Dominadora e dominado, verão que o submisso
é uma pessoa individuada e adulta e não
um infantil emocional. Terá caminhado uma
longa trilha de desmontagem da masculinidade produzida
culturalmente, com todas as mentiras do patriarcado,
para ter *escolhido* renascer sob as ordens de
uma Mulher em seu poder uterino.
É o final genial dado por Masoch ao romance
de Severin e Wanda: ela percebe que ele está
completamente entregue, mas ele ainda não
é livre o suficiente para ser completamente
submisso, seu masoquismo é ainda uma fuga,
no entender de Wanda, uma doença, que fará
de Severin um parasita dependente. Severin precisaria
viver sua vida, amadurecer, saber do que era e
do que não era capaz, enfim tornar-se homem,
em toda a dimensão cultural e social dessa
palavra, para então poder entregar-se,
desmontar esse poder patriarcal diante do fascínio
do poder de Wanda, a Vênus...
Severin jovem é o modelo do homem que percebe
sua completa dependência e incompletude
diante do feminino, mas é inexperiente
de si mesmo...acredita que será alguém
pelo domínio de Wanda...O velho Severin,
que é, agora, um dominador, cultua o feminino
do belo quadro de Wanda que o tem a seus pés,
ela sempre o teve ali e nunca deixou de tê-lo,
ele ainda está a seus pés, porém,
viveu a vida, enfrentou o mundo da sociedade e
da cultura, fez-se homem como dele se esperava,
para poder se desvestir desse papel...
Só é possível entregar aquilo
que se tem.
Só é possível renascer de
uma vida já vivida. Só é
possível permitir-se a submissão
a quem, de algum modo, já provou em si
mesmo o poder. Assim, não admira que um
dominador possa fazer a trajetória rumo
à submissão. Pois não há
um abismo, senão a mesma busca de sentido
que é o enigma do masculino...
6. Pressuposto da dominação
masculina: o caráter social do poder do
falo.
Como vimos antes, a questão feminina está
em como lidar com o poder do útero, que
já é naturalmente presente na mulher,
como poder de vida ou morte sobre o outro, que
pode ser vivido simbolicamente numa relação
sm, onde o alívio da Dominadora seria o
de se sentir Senhora Absoluta de outrem e, ainda
assim, não matá-lo.
Recordem de Vênus das Peles, como Wanda
conduz Severin a ponto de poder matá-lo
sem que fosse punida se o fizesse... O poder masculino,
representado pelo falo - sempre "outro"
- emerge da dinâmica social e cultural de
convivência.
Diferentemente do útero, que é uma
questão posta no corpo, o poder fálico
precisa de expressão social, precisa "se
exibir". Isso vai desde a divertida brincadeira
de "mostrar o pipi", passa por tormentosas
medidas em centímetros (atire a primeira
pedra quem não levou régua escolar
para o banheiro na adolescência) para se
consolidar e se difundir em objetos de status
para os quais se "difunde" o poder fálico.
Esse caráter "social" do poder
masculino dá uma cor diferente ao dominador.
Deixamos agora o cenário de Masoch e adentramos
ao cenário de Sade. Enquanto para Masoch
há a importância do contrato e do
privado(oculto), para Sade predomina a Sociedade
(do Crime) e seu caráter público-institucional
("exibido"). Deste modo, Sade desenha
o modelo da dominação masculina
e, nesse modelo, o dominador transita por diferentes
papéis sociais, seja de padre, seja de
patrão (Senhor, Rei), que até etmologicamente
desembocam no primeiro papel fundamental masculino:
pai. 6. O incesto como tabu e eixo da dominação
masculina. Indo diretamente ao ponto, o tema chave
da dominação masculina será,
em alguma medida, uma forma de incesto.
O prazer da submissa nasce desde o momento em
que ela cuidadosamente escolhe um "novo"
pai, não mais o biológico, mas que
terá do pai original a projeção
do poder que ela busca e que ela teme, na dúvida
se ela merecerá o falo para que seu útero
desperte (daí o que vimos antes: ao despertar
o poder do útero, o poder do falo provoca
às vezes o emergir de uma dominadora).
Ela será a escrava-puta, a filha "do
outro", que tinha dignidade mas que, descuidada,
foi aprisionada e agora é castigada e simplesmente
usada. Para o dominador, é o incesto com
a filha "do outro". Preso sempre pelas
normas sociais que justificam seu poder fálico,
o homem se vê, repentinamente, pela entrega
e presa da submissa em suas mãos, livre
dos limites morais, podendo exercer e viver sob
o império do imediatismo, inconseqüência,
narcisismo e, sobretudo, voracidade dos desejos
masculinos...
Da escrava-puta não se espera família,
apenas a satisfação do instinto.
Por um outro caminho, diferente do submisso, a
submissa adentra à despersonalização:
cadela, égua, vaca...animais domesticados
e reprodutores por excelência, mas numa
relação que lhe nega a reprodução.
Compete ao dominador a difícil tarefa de
negar o útero e seu poder.
Observem como é freqüente na manipulação
e disciplina da submissa o treinamento anal. Diferente
do homem, que é levado à feminização;
a submissa é liberta do seu "fardo
de poder" transferin do o prazer genital-uterino
para o anal. Não há masculinização
forçada, mas ela é despersonalizada
como mulher: ao ter prazer anal, ela não
é distinta de um homem (entre outros motivos
mais dolorosos, essa é *uma* das razões
latentes que leva mulheres baunilha a recusar
sexo anal). A escrava-puta é o modelo favorito
de Sade, pois qualquer traço de moralidade
e virtude é severamente punido.
Outro tema é o da relação
patrão-empregada. Tema mais sutil que o
da escrava-puta, onde o Dominador confere, de
início, algum reconhecimento de dignidade
da submissa. Nesse tema se encaixam vários
jogos psicológicos em que a submissa vai
tendo comprovada, sistematicamente, sua dependência
e incompetência, descendo, nos casos mais
graves ao castigo físico. No nosso modelo
patriarcal-colonial, diríamos que a escrava-puta
é a da senzala, e a "empregada"
é a mucama da Casa-Grande. Pode estar no
leito de Senhora ou no tronco...
Ainda é o tema do incesto com "filha
do outro", mas há o prazer em elaborar
mais o ritual. Os ritos goreans às vezes
são mais dessa escrava-empregada, por sua
ritualização que adia a violência
explícita que se abate, inevitavelmente,
sobre a escrava-puta... Os dois temas anteriores
derivam do tema fundamental: o incesto com a filha.
O incesto com a filha é um tabu masculino
que tem seu paralelo no feminino tabu do aborto.
Os dominadores, quando se atribuem títulos,
raramente usam Deus ou Pai (mesmo em inglês).
Preferem os institucionais Senhor, Dom, Mr, Sir...
o que é uma injustiça para com o
nosso patriarcal, colonial e brasileiro "Painho"...
A dificuldade aqui - tal como nas dominadoras
que evitam o uso de Mãe como prenome -
é a de não tornar explícito
o que deve ser implícito. Não escancarar
o apelo velado do simbólico. Há
em algumas relações Dominador-submissa
a eclosão de um afeto. O homem, que poderia
simplesmente se apaixonar, antepõe a essa
paixão a crueldade - novamente Sade.
Seria o homem livre a ponto de romper todos os
liames morais e usar a própria filha como
uma escrava-puta? Se esse homem encontrasse a
submissa "ideal", a que desejasse ser
recebida como filha e ultrajada pelo pai, pela
sedução de sua simples submissão...
essa seria - muitas vezes é - a combinação
explosiva.
7. Dominação masculina e submissão
feminina: patriarcalismo e rebeldia.
Enquanto é próprio da dinâmica
feminina a intuição e a síntese,
a dinâmica masculina se fundamenta na previsibilidade
e análise. Uma Dominadora entra na cozinha
e volta de lá com a primeira colher de
pau que encontrou. O Dominador, por outro lado,
passa horas estudando e montando a unidade de
choque elétrico na tensão exata
para ferir e não machucar sua sub...
Se recordarmos a precisão milimétrica
e paciente dos laços e nós do shibari,
compreenderemos a ansiedade masculina pelo desempenho,
pela perfeição, ansiedade que encontra
seu conforto e sua catarse na submissa, que comporta-se
como boa filha, obediente, disciplinada, higiênica,
para, num instante, ser jogada ao chão
e usada como animal pior que a escrava-puta...
Disciplina e catarse. Ordem e caos. Esse é
o anseio do pai rebelde contra a civilização
que o instituiu, cuja rebeldia máxima é
estuprar a filha e ver em seus olhos não
mais que prazer... A Sociedade do Crime de Sade
é a ordem a serviço da perversão,
a civilização a serviço da
violência...
O fascínio da submissa em ser essa filha
pode ser compreendido por dois mitos: a submissa
física, que corresponderia a Elektra, o
amor ao pai como carne do pai e carne da filha-amante-esposa
(sim, ela chegaria novamente ao útero,
o incesto que procria). De outro lado, a subserviência
completa ao pai, vivida no plano afetivo moral,
como Antígona, que enfrenta as leis e a
civilização para dar sepultura digna
a seu irmão e, simbolicamente, a seu pai,
Édipo e seus ancestrais. O chicote ainda
descerá sobre o corpo dessa submissa moral,
mas a dor será sempre a experiência
de liberdade ante a civilização.
A liberdade de Antígona se rebela ante
a civilização representada pelas
leis de Creonte, seu tio, que não se esquece
de castigar-lhe devidamente a virtude.
Poderíamos pensar que o tema Dominador-submissa
fosse o mais conservador, por se fundamentar em
regras vigentes do patriarcalismo. Isso é
falso, ao menos em parte. Dominador e submissa
pervertem o patriarcalismo, fundado no princípio
de "foder a filha dos outros" e "não
deixar que fodam minha filha".
Ao se passar por filha e escrava-puta, a submissa
abre ao Dominador a perspectiva do incesto, da
corrupção do eixo de toda a moral
patriarcal, que deu tudo ao homem apenas para
que ele não fodesse as próprias
filhas. Quando amadurecida e bem sucedida, a relação
Dominador-submissa é a denúncia
escancarada da insuficiência da civilização:
o tesão vence a ordem, o pai fode a filha,
ela consente e tem orgasmos...
8. Homoerotismo masculino e sadomasoquismo.
A origem do homem é bastante controversa.
Quando se encontram restos de ancestrais humanos,
encontram-se apenas restos de fêmeas. Alguns,
não sem o devido bom humor lembram que,
afinal, "pênis não tem osso",
porém, não é só pelo
pênis, mas também pelas dimensões
ósseas, notadamente a adaptação
da bacia ao parto, que nos fazem sugerir que determinados
ossos são femininos...
Seja por esse aspecto da paleontologia, seja pelo
aspecto já anteriormente abordado da experiência
comum de todos termos passado por um útero
feminino - e, portanto, termos sido todos ao menos
mulheres *em parte* - há em todos uma memória
feminina, pois todos já estivemos, concreta
e simbolicamente, "contidos no feminino".
Uma visão bastante procriativa da sexualidade
insistiria em chamar as relações
entre iguais de relação homossexual.
Esse é o uso corrente, que, entretanto,
encobre o fato de que essa é uma visão
procriativa e sexista da vivência sexual,
bem próxima do determinismo científico:
somos seres determinados pela natureza e contra
ela lutamos por meio da cultura.
A refutação - ao menos da versão
ingênua dessa hipótese - pode ser
encontrada em qualquer sala de aula do ensino
médio.
Procure por alguns estereótipos de garoto
nessa sala: um que não gosta de jogar bola,
tem na sala duas ou três amigas que mais
o protegem e o têm mais por colega do que
como possível "ficante" e outro,
que espera ansioso o final da aula de educação
física, onde, no vestiário, muitas
vezes é passivo para os demais colegas,
usa brincos, sandálias e quando provocado,
imita Vera-Verão, de saudosa memória,
rodando a baiana.
Lá estão eles, sendo bombardeados
pela tempestade de testosterona da adolescência
masculina e lidando com a contradição
do determinismo biológico: um está
identificado com as mulheres, como um igual; outro,
atraído pelos homens e buscando atraí-los
explicitando já na adolescência sua
"homossexualidade", assumidamente o
"viado" da turma.
Há um terceiro, que nós não
vemos: o que tem um aspecto socialmente masculino,
que como as colegas do primeiro, o protege das
gozações dos outros garotos e que,
nas festas do segundo, fica com ele, num quarto,
no banheiro da escola e que, confuso, se sente
atraído mesmo pelas meninas...
Esses três garotos, presentes em praticamente
todas as escolas do país, jogam por terra
o determinismo biológico da sexualidade.
Para que caibam nos rótulos dessa visão
sexista, na vida adulta, o primeiro será
chamado de enrustido, o segundo de assumido, o
terceiro de bissexual.
A falsidade desses rótulos está
em aplicá-los apenas aos que se interessam,
em algum momento, pelos iguais.
O olhar um pouco mais seletivo sobre essa mesma
classe de adolescentes encontraria entre os "heterossexuais"
as mesmas categorias: enrustidos, assumidos e
bissexuais. Mas, como aos olhos da cultura, a
heterossexualidade "não é problema",
essas três categorias aplicadas ao heteroerotismo,
passam desapercebidas. Ou, se algum garoto for
heteroerótico e enrustido, teremos a triste
confusão de achar que, por ele ser enrustido,
é homoerótico, o que é um
desastre freqüente, pois buscará continuamente
os parceiros errados.
A garota heteroerótica enrustida é
tida por "normal", pois espera-se na
sociedade patriarcal que a mulher seja o mais
frígida possível. Nesse caso, se
ela for heteroerótica assumida é
que passará por "biscate", por
"puta" da turma e até, por "sapatão"
mesmo que nunca chegue perto de outra garota.
Essa digressão toda vem para que coloquemos
de lado o determinismo biológico e voltemos
nossa atenção para o fato de que
a sexualidade, e não apenas o gênero,
é também uma construção
cultural.
Livres da perspectiva procriativa, o que temos
são corpos com capacidade de obter estímulos
que produzem prazer. Que estímulos são
esses e o significado do prazer é tarefa
para os sexólogos e "psicocoisicos"
(psicólogos, psiquiatras, psicanalistas...)
discutir. Aos demais, basta sentir.
O par "escolha do estímulo-significado
do prazer" compõe a chave inicial
do que chamaremos de erotismo, o conjunto de fatores
que nos leva a uma vivência do prazer corporal
que produz uma reação física
determinada, o orgasmo.
Infelizmente não temos espaço aqui
para discutir essas definições de
orgasmo e erotismo, que têm lá seus
defeitos, mas que estamos usando para enfatizar
bem o que é o prazer corporal: uma reação
obtida de estímulos *e* os significados
que atribuímos a essa reação
(de nada adianta agora a "mecânica"
do orgasmo, dissociada de sua significação).
Gostaria que me desculpassem por dar somente agora
essa definição, mas a construção
desses textos foi absolutamente hipertextual:
pulamos de um assunto a outro, sem a linearidade
que a lógica textual exige.
Pela definição acima vimos que o
que fizemos, em todos os outros textos foi discutir
o *significado* da experiência de prazer
corporal obtida ao se infligir ou receber dor
ou simplesmente dominar e ser dominado, em diferentes
dinâmicas sadomasoquistas, a partir das
construções culturais mais primitivas,
o ser mãe, o ser pai - transmutando, mas
não superando completamente a perspectiva
procriativa, dado que isso beira o impossível.
Compreendido o que é o erotismo, para fins
desse texto :), podemos falar em homoerotismo,
heteroerotismo e pan-erotismo, sado-erotismo,
maso-erotismo, verbo-erotismo (um dos meus fetiches,
por sinal....:)).
Em particular, como a dinâmica erótica
masculina é definida, no patriarcalismo,
em sua identidade, por construções
culturais - lembremos mais uma vez a interioridade
do útero e a exterioridade do pênis
- a dinâmica homoerótica em geral
e a dinâmica homerótica sadomasoquista,
em particular, passarão por análise
semelhante à da dominação
masculina heteroerótica, fortemente baseada
em *papéis sociais*, para, então,
desembocar nos aspectos físico-corporais.
9. Civilização e selvageria
como tensões no homoerotismo masculino.
Nos dois casos anteriores, dominação
feminina e dominação masculina,
lidamos com papéis derivados dos aspectos
procriativos - mãe e pai - e vimos que
o sadomasoquismo extraía, em ambos os casos,
muito de seu significado erótico da ruptura,
ao menos simbólica, de dois tabus: o aborto
e o incesto. É verdade que, embora seja
possível retornar à temática
do incesto, agora sob a relação
pai-filho, essa temática só explicaria,
parcialmente, o significado do sadomasoquismo
homoerótico, como veremos adiante.
Abro um parênteses (na esperança
de evitar nova seção!) para mostrar
aos alternantes (switchers) mais aflitos que o
tabu do incesto é o ponto de partida para
a explicação dessas relações,
quando visto nas relações eróticas
irmã-irmão. Por alternar os papéis
de dominação e submissão,
esses parceiros incluem uma pausa lúdica
que acrescenta fantasia sobre a fantasia: "Agora
você é o Pai e me domina", "Agora
eu sou a Mãe e te domino"... como
nas brincadeiras de faz-de-conta da infância.
Ao assumir o papel de "Pai", o irmão
consuma o incesto; ao assumir o papel de "Mãe",
a irmã adentra ao poder do útero...
e assim segue a relação.
Também devo indicar que não me sinto
plenamente em condições de analisar
o sadomasoquismo homoerótico feminino,
pois creio que essa análise depende de
alguma vivência direta ou indireta, que
não possuo. Mesmo assim, adiante farei
algumas indicações.
No caso do homoerotismo, surpreende o seguinte
fato: não há que lidar simbolicamente
com um tabu, porque o tabu já está
explícito, há um tabu sobre a "homossexualidade",
e, em princípio, o sadomasoquismo não
se constitui numa forma simbólica para
a expressão homoerótica, tal como
acontece com o incesto e o aborto. Ou seja, no
caso do homoerotismo, a "tensão"
do tabu já está rompida quando se
dá a relação. Não
é a relação que dará
a vivência "velada" do tabu.
Também é verdade que, enquanto nossa
cultura tem um repertório de papéis
bem definidos nas relações heteroeróticas
que permitem uma clareza na hora de "romper"
com esses papéis, essa mesma cultura não
propõe um repertório padrão
para a relação homoerótica,
ou seja, o simples acontecer de uma relação
homoerótica, já é, por si,
a ruptura. O que vamos encontrar nas relações
homoeróticas é um padrão
de dispersão de formas e papéis.
Tentaremos aqui achar elementos comuns nesses
vários papéis que vão desde
uma relação incestuosa pai-filho
(um padrão que aparece em alguns pares
de gays-ursos) até à relação
de completa despersonalização do
outro em objeto (os glory-holes, paredes onde
um parceiro passa seu pênis sem saber se
há outro parceiro do outro lado e quem
é ele).
Uma tendência inquietante do sadomasoquismo
homoerótico masculino (abreviarei para
SHM) é que homens entre homens rompem facilmente
com a civilização e retornam à
selvageria. Isso vai desde a queixa dos parceiros
pela instabilidade e traições nos
relacionamentos (o casamento é uma instituição
civilizada) e chega até a pratica do sadomasoquismo,
muitas vezes coletiva ou impessoal, em sessões
de fisting ou spanking que mais parecem uma matilha
reunida numa darkroom do que uma organizada play-party.
Há o fato da expectativa de, entre homens,
se esperar uma maior resistência à
dor, resquício machista ou patriarcal.
Porém a prática sadomasoquista toma
a relação Senhor-escravo a partir
da memória da relação de
Guerra: Guerreiro-prisioneiro. O destino do guerreiro
derrotado é o de ser escravo. Ao poupar-lhe
a vida, o vitorioso o aprisiona numa dívida
sem fim... e é assim, em última
análise, que Senhor e escravo se posicionam.
Entre esses guerreiros, a civilização
está rompida e o caminho da selvageria
e da violência sem limites está aberto.
O destino da punição de um prisioneiro
deveria ser o canibalismo. E eis aí o tabu
envolvido na relação SHM. Cabe ao
mestre "comer" de formas simbólicas
e físicas o escravo que o destino lhe entrega
nas mãos. É uma relação
de dominação diversa da heteroerótica.
Senhora-escravo se relacionam por um útero
e seu poder de vida e morte. Senhor-escravo se
relacionam pela guerra, pelo aprisionar e devorar
o outro, o igual e o diferente, ao mesmo tempo,
há apenas o elemento comum da face da morte,
em ambos os casos.
A coletividade e impessoalidade da guerra fazem
com que as ligações Senhor-escravo
sejam bem mais fracas do que os pares heteroeróticos,
pois seu pressuposto é o curto prazo. O
fim da guerra, a decisão de quem vence
e quem é derrotado, o espólio, o
estupro e o canibalismo. Fim.
Nada de relações muito duradouras,
como acontece inclusive no homoerotismo "baunilha".
Esse tema, selvagem e violento, é repetido
à exaustão até mesmo nos
filmes de SHM. Impressiona o apego do masculino
ao desempenho. O escravo se esforça por
se superar na tolerância a dor. Um guerreiro
que quer ser provado. O Mestre se esforça
por se superar na crueldade, na exibição
do domínio, em deixar claro quem domina...
Sobre esse tema intenso e de curta duração,
se constrói, à semelhança
da relação Mestre-empregada, uma
relação Senhor-servo, de mais longa
duração. O caráter servil
é diferente do prisioneiro condenado ao
canibalismo, Já é um indício
de civilização, de relação
que se institui em torno à propriedade.
Porém, a violência física
será sempre bem mais explícita e
as violações bem mais fortes do
que as que cercam a sub-empregada ou a sub-escrava-puta.
Enquanto uma Dominadora castra para que o filho
não a violente, o Mestre castra apenas
para exibir poder, para provocar mais uma morte
simbólica. Castrado, mas não morto,
o prisioneiro passa a servo e mantém a
relação de subserviência ao
mestre. Observem que, curiosamente, no estágio
mais próximo da civilização,
a relação pai-filho, que é
por si complicadíssima (Édipo, lembrem-se,
*matou* o próprio pai), *diminui* a intensidade
SHM.
A temática ursina - os gays ursos - é
antes de tudo uma temática de proteção,
de afeto, de tudo o que o patriarcalismo vetou
aos pais e filhos. Nesse caso, o carinho é
a ruptura do tabu de que "homem não
pode ser afetivo com homem". Notem como na
relação de incesto Pai-filha, acontecia
o oposto: castigar a filha, discipliná-la,
chicoteá-la eram formas simbólicas
do estupro paterno desejado pela filha, que muitas
vezes o Senhor consuma na serva desejosa. Agora,
entre pai-filho, abre-se uma via de afeto, que
quase distancia essa experiência da dominação
SHM, por se enojar da violência que a cultura
entende como "masculina".
10. Paradigmas(?) do SH.
Além do chocante e trágico "caso
Édipo", devemos evocar o sempre lembrado
amor entre Davi e Jônatas, que não
impediu que, ao final, Davi levasse Jônatas
à morte (afinal estavam em lados opostos
de uma guerra). Poderíamos lembrar de Átila,
o Huno e o não menos memorável Vlad,
o empalador, predecessor de ninguém menos
que Drácula. Embora os delírios
do amor romântico façam de Drácula
um mordedor de pescoços femininos, Vlad
se alegrava em empalar guerreiros pelos campos...
Evidentemente, o primeiro paradigma é do
próprio guerreiro canibal.
Na medida em que chegamos próximos à
civilização, os homens se "des-hominizam"
e se tornam ursos, e o paradigma ursino é
encontrado em infinitas e bem-humoradas parcerias
masculinas que negam essa selvageria canibal (o
paradoxo de ser urso e não-selvagem :)
) que divertidamente (e por absoluta falta de
outro bom exemplo) poderíamos chamar de
"Paradigma Zé Colmeia e Catatau",
fundamentado na amizade, na definição
da liderança por deixar o outro ser quem
é.
A alusão ao guerreiro canibal nos faria
lembrar o nazismo, mas o nazismo representa um
estágio de doença da própria
civilização: da impessoalidade da
matilha coletiva o nazismo implantou a impessoalidade
do exército do Estado. Da catarse da orgia
canibal restou apenas um "civilizado"
a cumprir ordens, sem prazer de matar, matar burocraticamente,
assar e não comer. O nazismo foi a negação
da volúpia e do prazer selvagem da guerra
para torná-la um produto industrial, racional
e insosso. É o paradigma anti-erótico
por excelência.
Devemos evocar a negação ursina
da selvageria-mortandade em um outro fato histórico
sempre lembrado: convidado a uma caçada
de ursos, o Presidente Ted Roosevelt não
conseguiu matar nenhum. Os puxa- sacos, prevendo
que isso talvez acontecesse, deixaram um pequeno
urso acorrentado, para que o presidente pudesse
matá-lo. Ted recusou-se a cometer essa
atrocidade, por julgá-la covarde e, por
essa razão, em inglês, os ursinhos
de pelúcia são chamados de "Teddys".
"Não matar quem é incapaz de
combater" e "devorar apenas quem poderia
me vencer" são os pilares da ética
SHM em qualquer de seus modelos...pois esses dois
princípios selvagens definem os "iguais"
de que fala o homoerotismo masculino.
É provável que o sadomasoquismo
homoerótico feminino siga os moldes semelhantes
aos do "guerreiro canibal", sucesso
de guerreias como Xena fazem a cabeça de
muitas dominadoras e suas escravas. Porém,
pela possibilidade de passagem da submissa a dominadora,
o sadomasoquismo homoerótico feminino -
SHF - poderia também ter uma característica
de iniciação: os rituais de preparação
de uma mulher para que ela pudesse chegar a exercer
o seu poder uterino. A mãe que faz a filha
descer aos infernos, como aconteceu a Perséfone,
pode ser uma boa indicação, mas
realmente isso demanda mais estudo e mais relatos
das mulheres que vivem essa experiência.
11. Dos ruídos da masmorra.
Evidentemente, as relações concretas
são bem mais complexas que o que pudemos
discutir. Daí o caráter sugestivo
e não conclusivo desta reflexão.
Os temas estão presentes mas percebê-los
ou não, vivê-los ou não depende
do que buscamos no sadomasoquismo. O mais das
vezes nossa condição é tão
angustiante, que bastam-nos o espancar ou o ser
espancados para que tudo se aquiete em nosso interior.
Seria bom que cessassem os dicursos e tudo o que
pudéssemos ouvir fossem chicotes e gemidos...mas
quando tudo se aquieta na masmorra, inevitavelmente,
conversamos...
Por #dumuz#_RF