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Quando a beea me pediu que escrevesse
sobre esse assunto, sabia que iria enveredar por
um terreno pantanoso, uma vez que iria lidar com
dois paradigmas muito poderosos na vivência de cada
um de nós: o amor e o BDSM.
De um modo geral, pela minha experiência
pessoal e pelo que vejo da dos outros, o BDSM surgiu
na vida de cada um de nós como resultado de um processo
mais ou menos intenso, mas sempre libertário. Escravas
ou Mestres, submissos ou Dominadoras, para a maioria
de nós o BDSM representa a possibilidade insuspeitada
de viver uma fantasia que não sabíamos até então
poderia ser experimentada como algo inteiramente
são, seguro e consensual. A descoberta disso, via
de regra, transborda de entusiasmo. É como se enfim
nos livrássemos dos preconceitos, menos os alheios
e mais os nossos próprios. Mas sempre que a humanidade
(e cada pessoa em particular) se livra de algo que
lhe oprime, a tendência inicial é rejeitar completamente
o que antes lhe sufocava. E o que nos impedia de
alcançar a liberdade da vivência BDSM?
Bem, essa questão é bem pessoal, mas
creio que no âmago de cada resposta em maior ou
menor grau está um pouco do ideal do amor romântico,
aquele amor sublime, que não traz o paradoxo do
ódio dentro de si, que é apenas enlevo e alegria,
que é celebrado nos matrimônios, nas letras de música,
nos poemas de todos os tempos, nos romances, no
cinema, no palpitar dos corações adolescentes (e
dos nem tanto). Dentro do ideal do amor romântico
é impossível pensar que alguém que me ame possa
comprazer-se em êxtase como meu sofrimento. E como
eu posso amar alguém que me tortura? Desse modo,
muitas vezes foi preciso questionar (e negar) muito
esse ideal de amor para se chegar à possibilidade
da experiência BDSM. E aí, muitos de nós vangloriam-se
por dissociar o amor (qualquer amor) do BDSM, inclusive
tratando com um certo desprezo, mais ou menos sutil,
aqueles que se dizem amorosamente envolvidos com
os seus parceiros nos jogos BDSM, pressupondo que
quando tais sentimentos não estão presentes nas
relações, o jogo é mais maduro, mais puro, mais
"essencialmente" BDSM.
No entanto, nesse ponto, acho que
me cabe comentar, há amores e amores. Formas inúmeras
de amar, talvez tantas quanto sejam as pessoas no
mundo. Dizendo isso não pretendo me eximir do cerne
da questão, relativizando tudo e portanto não afirmando
nada. Afirmo, sim, que no meu entender o amor é
condição essencial para viver o BDSM. Mas não me
refiro aqui ao ideal do amor romântico, até porque
nesse eu não acredito. Também com isso não pretendo
retroceder no que a maioria de nós, mulheres, conquistamos
nas últimas décadas, ou seja, a capacidade de dissociar
sexo de amor. Embora algumas espécimes remanescentes
ainda não tenham tido o prazer dessa descoberta,
a maioria de nós já sabe que é possível (e muito
prazeroso) o sexo pelo sexo, sem necessidade de
maiores sentimentos envolvidos. Inclusive o sexo
BDSM.
Não é disso que trato aqui. Para dizer
do que trato aqui, tentarei falar sobre o que significa
o BDSM, do meu ponto de vista:
1. Antes de tudo, entrega irrestrita. Não consigo
imaginar um relacionamento BDSM onde há espaço para
algum canto escuro, secreto, intocável, sagrado.
Não há nada que possa ser pensado, imaginado, vivido,
fantasiado, mas que não possa ser dito ao outro.
2. Desse modo, o BDSM também significa confiança
absoluta, porque não se partilha nossas sombras
com alguém em quem não se possa depositar total
confiança.
3. É preciso cumplicidade, sintonia, afinidade para
submeter-se a uma outra pessoa, para seguir na trilha
que ela indicar, para colocar o prazer do outro
acima do nosso (sabedores que já somos de que ali
estará, ao final, também o nosso prazer).
4. É preciso muitas vezes uma determinação férrea
para suportar a dor (especialmente aquela que realmente
não buscamos - pois sabemos que para nós é muito
fácil rir com prazer da maioria das dores que nos
infligem), e uma imensa força de vontade para retirar
dessa dor verdadeira (dessa "dor pura" digamos assim)
um prazer real, já que é essa a nossa glória e o
nosso suplício.
5. Por fim, é preciso um respeito profundo, muito
tesão e um interesse constante pelo outro para que
palavras seguras sejam ditas e sejam recebidas,
sem que a natural e mútua frustração se transforme
em mágoa, ressentimento, cansaço ou desânimo.
Para mim, entrega irrestrita, confiança,
cumplicidade, sintonia, afinidade, determinação,
força de vontade, respeito profundo, muito tesão
e interesse constante nada mais são que outro modo
de falar, em conjunto, de AMOR. E talvez se há alguma
divergência entre nós, essa seja apenas de terminologia.
Percebo, que acabei construindo um outro ideal de
amor, menos ingênuo talvez, menos maniqueísta, já
capaz de incluir em sua estrutura sentimentos menos
"nobres" como o ódio, a raiva, a força do poder,
mas nem por isso menos ideal. No entanto isso só
reforça o pensamento de que é de amor que estamos
tratando aqui, pois qual a matéria de que é feito
o Amor senão o Ideal?
Na prática, nada é assim tão simples,
e a determinação férrea muitas vezes se confunde
com resistências férreas, a entrega irrestrita às
vezes se confunde com o medo da perda, a sintonia
se abraça com a acomodação, a força de vontade vira
teimosia, e é preciso doses extras de paciência
e tolerância para não perder o rumo. Mas amor é
assim mesmo, cantado na prosa e no verso sempre
soa diferente do que se vive dentro da pele - mas
aí já é tema para um outro colóquio...
jullia
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