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PARA QUE SERVE O AMOR?
Konstantin Gavros

A cultura impregnou nossas consciências de tal maneira que só conseguimos aceitar nossas pulsões sexuais depois de racionalizá-las. Ou melhor, depois de passá-las pelo filtro da autocensura.

E não me refiro aqui ao raciocínio frio, supostamente lógico, que, reconhecendo e aceitando a necessidade manifestada pelo corpo, distancia-se de seus instintos, analisa a real medida deles - bem como a possibilidade de satisfazê-los - e, a seguir, parte para a realização do seu desejo ou da sua fantasia. Não, não é esse processo mental que analiso. E não o faço pelo simples fato de ele não existir. Infelizmente, o animal humano ainda não se mostrou capaz de agir dessa maneira, nem mesmo quando filosofa, nem mesmo quando pretende erguer um monumento de novas idéias, cujo objetivo último seria melhorar a vida de seus semelhantes. E se há sempre um outro eu por detrás das nossas idéias, dos nossos julgamentos - ou seja, se a isenção e a imparcialidade são impossíveis -, então não poderia ser diferente em relação aos nossos desejos mais íntimos.

No caso específico do sexo, o filtro da autocensura não só nos impede de agirmos de acordo com o que verdadeiramente desejamos, mas impregna nossas idéias e nossos julgamentos com todos os recalques e preconceitos que as camadas da cultura, sobrepondo-se uma à outra no transcorrer da história, têm poluído e maculado a consciência humana.

O instinto - e a paixão nascida desse impulso - não são mais forças livres. No substrato de cada mínimo gesto encontramos os pequenos ódios, as mesquinharias e os medos que nossas famílias, a escola - e, portanto, o Estado - e a religião inocularam em nós. E se os carregamos em nosso ser, trazemos também conosco, como uma conseqüência natural e infeliz, nossas neuroses e nossas fobias, nossas inseguranças e nossa timidez, nossas justificativas tolas e covardes para o Não que dizemos a nós mesmos repetidas vezes, nossa repulsa em relação ao Outro e o asco que devotamos a todos os que são diferentes de nós.

A maioria dos animais humanos consegue se conter, é claro, consegue até mesmo ludibriar essas forças antagônicas que rasgam a nossa carne minuto a minuto - mas a que preço! Nosso consciente fustiga, momento a momento, os porões do cérebro em busca de desculpas razoáveis - para nós, para nossas famílias e para o grupo social a que pertencemos -, a fim de justificar - ou apenas silenciar - os uivos e os gemidos que a libido emite a partir dos nossos corpos. E em nossa furiosa luta para domesticar o animal que carregamos em nosso ventre - essa luta ultrajante que a cultura nos impõe - passamos a sublimar o sexo, passamos a edulcorar nossos desejos sexuais, chegando a purificá-los com tal exagero que acabamos por criar o mito do amor.

Amenizamos a força de nossa libido até chegarmos ao ponto em que vivemos hoje, quando o sexo em estado puro, ou seja, a relação casual e fortuita com os mais diferentes parceiros, com o objetivo único de copular e satisfazer-se por meio do orgasmo, tornou-se uma prática marginalizada pela sociedade. Uma marginalização, infelizmente, reforçada pela Aids.

O prazer pelo prazer é aceito entre nós, dessa forma, com imensas reservas, apenas em momentos de exceção, em datas festivas nas quais a liberalização e a ausência de censura tornam-se, magicamente, um consenso. Fora desses curtíssimos períodos - incentivados pelo mercado de consumo e por suas ferozes aliadas: a propaganda e a mídia - a busca do prazer gratuito, isto é, destituído dos laços do amor, transformou-se em uma prática que deve ser relegada às sombras, aos becos sujos, aos ambientes fechados e de público restrito, aos motéis e às ruas escuras ou de pouco movimento. Ou a grupos restritos, minorias que conseguiram, a fim de garantir sua sobrevivência social, instituir um código próprio de regras, sinais e comunicação.

Mas, mesmo no interior desses grupos, há um significativo número de pessoas que insistem em inocular, nas relações sexuais que travam com seus companheiros, o germe do amor. Escravos das regras impingidas pelo Estado, pela família e pelas religiões, eles não conseguem aceitar que a satisfação de suas pulsões sexuais possa ocorrer de forma absolutamente descomprometida e desdobram-se em sucessivas e quase insanas tentativas de criar laços.

E essa talvez seja uma herança, mais do que cultural, biológica. Vários antropólogos nos oferecem o resultado de suas pesquisas, atestando o comportamento monógamo - ou parcialmente monógamo - de alguns dos primatas. Contudo, pergunto-me, não seria exatamente essa a mais forte das razões para nos afastarmos, conscientemente, da repetição condicionada de um comportamento marcado somente pela necessidade de sobrevivermos frente às leis insensíveis da evolução?

A promiscuidade, portanto, ainda é vista com reservas até mesmo no seio de comunidades que se intitulam libertinas. Há um delicado - mas indisfarçável - preconceito nessa maneira de olhar e avaliar, com silenciosa censura, aqueles que saltam de parceiro a parceiro, sempre insatisfeitos, sempre em busca de novas experiências, sempre prontos a exercer seu direito de copular com quem desejarem, sempre alegres, sempre isentos de qualquer culpa, sempre escandalosamente leves e felizes.

A liberdade desses corajosos animais humanos incomoda e fere o íntimo dos que ainda se encontram apegados às regras frias da monogamia, que a moral usa rotular - com o apoio da religião - de fidelidade. A recusa à monogamia é uma afronta à ordem e à aparente tranqüilidade burguesas.

O comportamento verdadeiramente libertino é uma afronta para aqueles que escondem seu puritanismo sob uma falsa capa de licenciosidade.

Mas a verdade é que o amor nos diminui. Em um primeiro momento, ele nos serve como desculpa para termos à mão as satisfações sexuais que buscamos. Mas depois, escravizados em um círculo no qual, em seu centro, brilham apenas as brasas semi-apagadas da paixão, no fundo nos arrependemos do muito que abdicamos em seu nome.

À segurança e à estabilidade emocional e material que as relações duradouras nos trazem, correspondem, elevadas a uma indescritível e maligna potência, a frustração, o vazio e a incerteza em relação às súplicas da nossa libido. O amor torna-se, assim, a desculpa dos tímidos, dos fracos e dos inseguros à pujança da vida.

O amor é um Não, disfarçado em Sim, à energia sexual que, indomável, flui em nossos corpos.

Seria o amor a única saída para nós, se pretendemos sobreviver enquanto espécie? Não creio. Talvez o animal humano encontre, no ato de escravizar-se a um único companheiro, certo indecifrável prazer masoquista. Talvez a absoluta liberdade - frente aos outros e a nós mesmos - seja um peso que nossa espécie ainda não evoluiu o suficiente para suportar. Mas, com certeza, a recusa ao prazer destituído de amarras sentimentais é apenas o ranço de uma civilização cujos valores judaico-cristãos perdem força, de maneira imperceptível, a cada dia.


Konstantin Gavros é escritor.
Assina, diariamente, o blog A verdade é o sexo, o sexo a verdade (http://sexoverdade.blogspot.com/)