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A cultura impregnou nossas consciências
de tal maneira que só conseguimos aceitar
nossas pulsões sexuais depois de racionalizá-las.
Ou melhor, depois de passá-las pelo filtro
da autocensura.
E não me refiro aqui ao raciocínio
frio, supostamente lógico, que, reconhecendo
e aceitando a necessidade manifestada pelo corpo,
distancia-se de seus instintos, analisa a real medida
deles - bem como a possibilidade de satisfazê-los
- e, a seguir, parte para a realização
do seu desejo ou da sua fantasia. Não, não
é esse processo mental que analiso. E não
o faço pelo simples fato de ele não
existir. Infelizmente, o animal humano ainda não
se mostrou capaz de agir dessa maneira, nem mesmo
quando filosofa, nem mesmo quando pretende erguer
um monumento de novas idéias, cujo objetivo
último seria melhorar a vida de seus semelhantes.
E se há sempre um outro eu por detrás
das nossas idéias, dos nossos julgamentos
- ou seja, se a isenção e a imparcialidade
são impossíveis -, então não
poderia ser diferente em relação aos
nossos desejos mais íntimos.
No caso específico do sexo, o filtro da
autocensura não só nos impede de agirmos
de acordo com o que verdadeiramente desejamos, mas
impregna nossas idéias e nossos julgamentos
com todos os recalques e preconceitos que as camadas
da cultura, sobrepondo-se uma à outra no
transcorrer da história, têm poluído
e maculado a consciência humana.
O instinto - e a paixão nascida desse impulso
- não são mais forças livres.
No substrato de cada mínimo gesto encontramos
os pequenos ódios, as mesquinharias e os
medos que nossas famílias, a escola - e,
portanto, o Estado - e a religião inocularam
em nós. E se os carregamos em nosso ser,
trazemos também conosco, como uma conseqüência
natural e infeliz, nossas neuroses e nossas fobias,
nossas inseguranças e nossa timidez, nossas
justificativas tolas e covardes para o Não
que dizemos a nós mesmos repetidas vezes,
nossa repulsa em relação ao Outro
e o asco que devotamos a todos os que são
diferentes de nós.
A maioria dos animais humanos consegue se conter,
é claro, consegue até mesmo ludibriar
essas forças antagônicas que rasgam
a nossa carne minuto a minuto - mas a que preço!
Nosso consciente fustiga, momento a momento, os
porões do cérebro em busca de desculpas
razoáveis - para nós, para nossas
famílias e para o grupo social a que pertencemos
-, a fim de justificar - ou apenas silenciar - os
uivos e os gemidos que a libido emite a partir dos
nossos corpos. E em nossa furiosa luta para domesticar
o animal que carregamos em nosso ventre - essa luta
ultrajante que a cultura nos impõe - passamos
a sublimar o sexo, passamos a edulcorar nossos desejos
sexuais, chegando a purificá-los com tal
exagero que acabamos por criar o mito do amor.
Amenizamos a força de nossa libido até
chegarmos ao ponto em que vivemos hoje, quando o
sexo em estado puro, ou seja, a relação
casual e fortuita com os mais diferentes parceiros,
com o objetivo único de copular e satisfazer-se
por meio do orgasmo, tornou-se uma prática
marginalizada pela sociedade. Uma marginalização,
infelizmente, reforçada pela Aids.
O prazer pelo prazer é aceito entre nós,
dessa forma, com imensas reservas, apenas em momentos
de exceção, em datas festivas nas
quais a liberalização e a ausência
de censura tornam-se, magicamente, um consenso.
Fora desses curtíssimos períodos -
incentivados pelo mercado de consumo e por suas
ferozes aliadas: a propaganda e a mídia -
a busca do prazer gratuito, isto é, destituído
dos laços do amor, transformou-se em uma
prática que deve ser relegada às sombras,
aos becos sujos, aos ambientes fechados e de público
restrito, aos motéis e às ruas escuras
ou de pouco movimento. Ou a grupos restritos, minorias
que conseguiram, a fim de garantir sua sobrevivência
social, instituir um código próprio
de regras, sinais e comunicação.
Mas, mesmo no interior desses grupos, há
um significativo número de pessoas que insistem
em inocular, nas relações sexuais
que travam com seus companheiros, o germe do amor.
Escravos das regras impingidas pelo Estado, pela
família e pelas religiões, eles não
conseguem aceitar que a satisfação
de suas pulsões sexuais possa ocorrer de
forma absolutamente descomprometida e desdobram-se
em sucessivas e quase insanas tentativas de criar
laços.
E essa talvez seja uma herança, mais do
que cultural, biológica. Vários antropólogos
nos oferecem o resultado de suas pesquisas, atestando
o comportamento monógamo - ou parcialmente
monógamo - de alguns dos primatas. Contudo,
pergunto-me, não seria exatamente essa a
mais forte das razões para nos afastarmos,
conscientemente, da repetição condicionada
de um comportamento marcado somente pela necessidade
de sobrevivermos frente às leis insensíveis
da evolução?
A promiscuidade, portanto, ainda é vista
com reservas até mesmo no seio de comunidades
que se intitulam libertinas. Há um delicado
- mas indisfarçável - preconceito
nessa maneira de olhar e avaliar, com silenciosa
censura, aqueles que saltam de parceiro a parceiro,
sempre insatisfeitos, sempre em busca de novas experiências,
sempre prontos a exercer seu direito de copular
com quem desejarem, sempre alegres, sempre isentos
de qualquer culpa, sempre escandalosamente leves
e felizes.
A liberdade desses corajosos animais humanos incomoda
e fere o íntimo dos que ainda se encontram
apegados às regras frias da monogamia, que
a moral usa rotular - com o apoio da religião
- de fidelidade. A recusa à monogamia é
uma afronta à ordem e à aparente tranqüilidade
burguesas.
O comportamento verdadeiramente libertino é
uma afronta para aqueles que escondem seu puritanismo
sob uma falsa capa de licenciosidade.
Mas a verdade é que o amor nos diminui.
Em um primeiro momento, ele nos serve como desculpa
para termos à mão as satisfações
sexuais que buscamos. Mas depois, escravizados em
um círculo no qual, em seu centro, brilham
apenas as brasas semi-apagadas da paixão,
no fundo nos arrependemos do muito que abdicamos
em seu nome.
À segurança e à estabilidade
emocional e material que as relações
duradouras nos trazem, correspondem, elevadas a
uma indescritível e maligna potência,
a frustração, o vazio e a incerteza
em relação às súplicas
da nossa libido. O amor torna-se, assim, a desculpa
dos tímidos, dos fracos e dos inseguros à
pujança da vida.
O amor é um Não, disfarçado
em Sim, à energia sexual que, indomável,
flui em nossos corpos.
Seria o amor a única saída para nós,
se pretendemos sobreviver enquanto espécie?
Não creio. Talvez o animal humano encontre,
no ato de escravizar-se a um único companheiro,
certo indecifrável prazer masoquista. Talvez
a absoluta liberdade - frente aos outros e a nós
mesmos - seja um peso que nossa espécie ainda
não evoluiu o suficiente para suportar. Mas,
com certeza, a recusa ao prazer destituído
de amarras sentimentais é apenas o ranço
de uma civilização cujos valores judaico-cristãos
perdem força, de maneira imperceptível,
a cada dia.
Konstantin Gavros é escritor.
Assina, diariamente, o blog A verdade é o
sexo, o sexo a verdade (http://sexoverdade.blogspot.com/)
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