|
Passou longe dos noticiários um simpósio
da Sociedade Americana de Psiquiatria realizado em São
Francisco, em maio do ano passado, onde a pauta discutida
foi se algumas categorias de "doença mental"
deveriam ou não continuar fazendo parte das próximas
edições do DSM (Manual de Doenças
Mentais) editado por aquela associação.
Entre as doenças mentais discutidas naquele
evento estavam todas as parafilias, incluindo pedofilia,
exibicionismo, fetichismo, transvestismo, voyerismo,
sadomasoquismo e distúrbio de identidade de gênero.
O debate que está sendo ainda - travado
torna-se mais importante na medida que este manual tornou-se
referencia para a psiquiatria em todo mundo e , muito
mais delicado, quando nos lembramos que o assunto está
sendo discutido num pais onde a sodomia ainda é
crime.
Charles Moser, nosso já conhecido medico simpatizante
do SM, autor de
livros sobre o assunto e representante do Instituto
para Estudos Avançados
da Sexualidade Humana juntamente com Peggy Kleinplatz
da Universidade de Ottawa apresentaram uma veemente
defesa da retirada das parafilias, num estudo de nome
DSM-IV-TR e as parafilias.
O argumento deles é simples: ter interesse sexual
atípico, culturalmente
proibidos ou religiosamente proscritos não pode
ser motivo para uma pessoa
ser rotulada de doente mental.
A verdade é que diferentes sociedades estigmatizam
diferentes comportamentos sexuais. Fora isso, um dado
muito importante é que ate hoje, pesquisadores
não conseguem distinguir pessoas com parafilias
do resto da população "normofílica"
- termo que os autores usam para qualificar pessoas
com interesses sexuais convencionais.
Não existe motivo para haver um diagnóstico
parafílico, portanto.
Alem disso, Moser também chamou atenção
para o fato de que não existe ate
hoje uma linha de base ou um modelo teórico do
que seria, de fato,
uma sexualidade normal e saudável com a qual
pudesse se comparar pessoas com
interesses sexuais tendendo, por exemplo, ao sadomasoquismo.
Na edição de dezembro/2003 da prestigiosa
revista Archives of Sexual Behavior
Moser acaba seu artigo reforçando a idéia
que para eles é muito clara:
que qualquer que seja o foco de interesse sexual de
uma pessoa, isso pode
ser vivido de maneira saudável, de forma plena
e totalmente positiva.
Os métodos de diagnóstico psiquiátricos
mudaram.
A Associação de Psiquiatria Americana
classifica uma condição como doença
mental baseado em suas origens psicológicas,
emocionais ou de desenvolvimento juntamente com as motivações
inconscientes que teorizavam essa condição.
Mas a verdade é que nas ultimas 3 décadas,
a psiquiatria deixou de ter confiança nas teorias
tipo causa - efeito que tipicamente nunca puderam ser
comprovadas e saiu a buscar evidencias empiricamente
prováveis, não das origens patológicas
de uma condição em especial mas sim de
seu efeito incapacitante no presente.
E isso é importante porque geralmente não
é considerado desordem mental se não há
evidencia de inaptidão incapacitante no portador
de uma condição especial.
Pessoas com interesses "sexualmente incomuns",
podem estar vivendo, na realidade, bem felizes e bem
ajustados. Ao rotulá-los como patológicos,
a APA coloca-os como alvo de discriminação
e isso sim é causa de stress e pode ser danoso
ao perfil psicológico de qualquer um.
Ficamos aqui pensando como a APA, que não tem
nenhum conceito do que seja "sexualidade saudável"
ou até mesmo o conceito de uma "personalidade
saudável", pode querer definir sexualidade
"não saudável"?
Na medida em que as pessoas engajadas nestes comportamentos
não usuais são
capazes de viver suas vidas de maneira adequada dentro
de seus próprios
interesses, como pode a APA continuar patologizando
essas situações é a pergunta que
Moser e Kleinplatz deixam no ar ao finalizarem a defesa
de seus
pontos de vista, afirmando que a situação
dos parafílicos no momento atual
tem paralelo ao enfrentado pelos homossexuais antes
da retirada desta
condição do DSM.
Vai passar?
Beea
beea@desejosecreto.com.br
A íntegra do artigo de Charles Moser e Peggy
Kleinplatz, "DSM-IV-TR and the Paraphilias: An
argument for removal", está a disposição
de quem tenha interesse no assunto.
|