INTRODUÇÃO:
Aceitei
de bom grado o convite formulado pelo "Desejo Secreto"
para escrever um artigo sobre o 24/7 e, de quebra,
sobre o que é o conceito "
Femina Suprema". Antes porém de entrar
mais especificamente nesses assuntos, quero traçar
algumas preliminares que talvez facilitem o entendimento
e possam evitar interpretações distorcidas
por preconceitos bastante arraigados em nossa cultura
machista.
O entendimento
de um conceito demanda bastante reflexão,
embasada em dados colhidos de experiências
concretas e sempre após observação
acurada. E esta reflexão também traz
como elementos subjacentes, as bases teóricas
conhecidas que, como tal, estão sujeitas
a interpretações variadas.
Mesmo
quando se utiliza metodologia científica
experimental, os fenômenos resultantes de
ações que permitam o controle de grande
número de variáveis conhecidas, necessitam
do imprescindível estudo estatístico,
para que se possa aventar qualquer tipo de "verdade
científica".
No que
se refere ao comportamento humano, as variáveis
são bem mais complexas e extremamente difíceis
de serem influenciadas por controle externo. Daí
os cuidados ainda maiores que se deve ter na interpretação
de comportamentos, sob pena de que sejam formuladas
conclusões apressadas, e que possam vir a
se tornar "verdades" estabelecidas. E a história
está cheia de eventos que comprovam tais
considerações.
CONCEITOS BÁSICOS:
Tendo
em mente esse preâmbulo, necessário
para que não se entenda o que vem a seguir
como um conjunto de "regras ou normas" absolutas,
coloco alguns pontos de como vivo (experiência
vivida) um relacionamento 24/7 (ou seja, não
existem apenas em "cenas com hora marcada" ), sob
a égide da Dominação Feminina
como estilo de vida, tendo como embasamento
conceitual o que pode ser chamado de "Femina
Suprema".
"Femina
Suprema" ou "Supremacia Feminina" não
é 'papo', por vezes levianamente comentado,
mas trata-se de um conjunto de valores ditos "femininos"
que norteiam, não só nossa relação
(minha e de zepierre, com quem sou casada), mas
nosso estilo de vida, isto é, o modo pelo
qual eu e ele, livre e refletidamente, encaramos
o mundo. E temos muitas outras amigas e amigos que
também compartilham conosco esses conceitos,
e até mesmo as vivências, incluindo
cenas de Dominação/submissão,
onde os componentes SM são postos em prática,
coisa que também fazemos em nossa intimidade.
Portanto, não só não "me sinto",
como não estou sozinha neste discurso. Atualmente,
e por uma feliz coincidência, um dos "best-sellers"
mais comentados é o livro "Todo Poder às
Mulheres - Esperança de Equilíbrio
para o mundo" do médico-escritor Marco Aurélio
Dias da Silva, (Ed. Best-Seller) que conceitua muito
bem tais valores femininos, contrapondo-os com os
ditos "valores masculinos". [Vale a pena
ser lido pois possibilita o entendimento maior dos
marcos conceituais que tentam quebrar as "verdades"
estabelecidas pelo velho paradigma "machista-patriarcal"].
A busca
da felicidade é a procura de se viver dentro
do princípio da realidade interna de cada
um. Dentro da verdade íntima que deve ser
encarada com coragem e determinação,
para que possamos estar livres no arbítrio
de direcionarmos nossa própria existência,
e definirmos nosso estilo de vida. O que costumo
chamar de "quebras de paradigmas ancestrais" é
justamente a troca desse poder dominante por uma
forma mais "feminina" de viver : os valores que
possam substituir a agressividade sobejamente existente
e desgraçadamente sentida nos ditames da
sociedade ocidental. Não quero com isso dizer
de um modo maniqueísta que "feminino" é
bom e "masculino" ruim. Não é isso.
A agressividade é importante e deve existir,
mas ser canalizada para o bem comum, para a agregação
interpessoal, e não para uma competição
desenfreada em busca de valores materiais, predatórios,
autoritários que criam uma ilusão
de poder. Deixemos a solidariedade, a compreensão,
a generosidade, a bioética, direcionarem
nossa existência.
Além
de mulher, mãe, filha, atuando profissionalmente
na área da educação, cultura
e saúde, sou também uma dominadora
não profissional que vive há quase
10 anos a Dominação Feminina como
estilo de vida, desenvolvendo com meu marido/escravo,
uma relação D/s, onde componentes
SM são utilizados porque ambos temos prazer
em praticar tais métodos, numa maneira consensual
(portanto há limites acordados e não
impostos por nenhum de nós), sã e
sadia, pois há a preservação
da integridade física e psíquica,
com especial atenção à preservação
do ego de cada um de nós.
E vivemos
também, consensualmente e de um modo que
procuramos aprofundar a cada dia, uma relação
interpessoal instigante para nós mesmos,
a muito comentada relação 24/7.
E o que é isso em nossa vivência? Trata-se
de uma opção consciente de "troca
de poder", ou seja, procuramos aprender e desenvolver
como estilo de vida, valores que são, digamos,
divergentes dos paradigmas vigentes em nossa sociedade
de cultura predominantemente patriarcal, autoritária
e competitiva. Essa ruptura de paradigmas ou troca
de poder segue um norte dado por valores ditos femininos,
que podem ser sintetizados no conceito "Femina
Suprema". Esse conceito, insisto, não
é a colocação competitiva de
que "a mulher é superior ao homem", o que
apenas trocaria de sinal o que existe no bojo da
cultura patriarcal que, em seus preconceitos seculares,
advoga uma absurda superioridade de gênero.
O conceito de "Femina Suprema" é o
de supremacia do Feminino. O "poder que está
acima de tudo" dentro do humano (não falo
em divindades) é o Feminino, são os
valores femininos. É a entrega do homem e
seu ancestral poder cultural, ao poder de acolhimento,
orientação, direção,
que tem como sentido os valores femininos. A agressividade,
a competição, a ânsia pelo poder
passam a ter menos valor que a cooperação,
a solidariedade, a generosidade, a ética
nos relacionamentos. Isso parece utópico,
mas se lembrarmos que a sociedade é construída
por ações cotidianas, poderemos estar
contribuindo para a transformação
de consciências, e daí, da realidade.
Portanto, o fato de nós vivermos o 24/7 significa
que embasamos nossa vida nessa "troca de poder".
E isso trouxe paz, benquerença e felicidade
a nós (e a algumas pessoas que nos cercam,
sejam parentes, amigos ou companheiras(os) de D/s
SM).
Assim,
24/7 é, para nós, a vivência
de novos paradigmas no cotidiano de um casal que
se respeita, admira e, fundamentalmente, se ama.
Não é a absurda fantasia de uma "cena
eterna" de chicoteamentos, castigos, punições,
obediência cega de um masoquista destituído
de vontades e castrado em sua personalidade para
uma Dominadora insanamente sádica. Esse é
o meu ( e também de zepierre) modo de entender
a D/s, onde a mulher é a figura dominante
da relação, e não somente de
uma cena eventual.
E também
é útil assinalar que, como qualquer
outra relação interpessoal, trata-se
de um processo contínuo e dinâmico,
onde os eventos e, principalmente, os sentimentos
e as sensações são captadas
e discutidas, com o sentido maior de promover, sempre
e sempre, a melhoria da própria relação
em si, onde nossa felicidade e nosso prazer possam
ser cada vez mais aprofundados. Confiança,
respeito, cumplicidade, lealdade e, principalmente,
amor são fundamentais para que se possa viver
uma relação D/s, 24/7, um estilo de
vida.
O cotidiano lúdico na Dominação
Feminina 24/7 :
Nosso
envolvimento começou como muitos outros.
Há cerca de 10 anos, numa reunião
social, os primeiros contatos permitiram o início
de um namoro. Mas as características dominantes
de minha personalidade mostraram a zepierre, logo
nos primeiros encontros, que ele finalmente encontrara
a "mulher de seus sonhos". A Dominadora que buscara
por mais de 20 anos. Daí em diante, só
houve o aprofundamento da relação
nos moldes já comentados, e, aí vem
outro ponto importante, também no lúdico,
ou seja, aconteceu a introdução e
o aprofundamento dos jogos SM, que são, também,
nossa forma de prazer.
E como
é, na prática diária, o relacionamento
de Dominação Feminina, 24/7, em nossa
vida ?
zepierre
é um profissional bastante respeitado em
sua área profissional, tendo atuação
em funções que demandam grande poder
de decisão e comando sobre muitas pessoas.
Por outro lado é muito bem relacionado com
a família (irmãos e filhos já
adultos), exercendo também um papel de liderança
entre seus familiares consagüíneos.
Mas, em nossa vida íntima, é meu submisso
assumido, meu marido-escravo.
Nosso
cotidiano é quase o mesmo de todos os casais,
com a diferença de que a Dominação
Feminina rege nossos atos, e os componentes SM estão
muito presentes, seja como punições
por comportamento inadequado, seja como jogos que
fazemos nos finais de semana (quase todos), ou em
reuniões com outras pessoas D/s SM, ou até
em ocasiões sociais comuns, mas dentro de
nossa intimidade.
Um dia
comum em nossa vida, começa com um despertar
por volta das 7 horas. Sempre uso o banheiro primeiro,
enquanto zepierre arruma a cama e guarda as peças
de roupa que usei para dormir, colocando sobre a
cama já arrumada as peças de roupa
que irei vestir, e que defini na noite anterior.
Quando termino de usar o banheiro, chega a vez dele,
desde que já tenha concluído as tarefas
de arrumação do quarto. Enquanto ele
usa o banheiro para seu banho matinal e demais ações
(inclusive o urinar que é sempre sentado,
em quaisquer circunstâncias, exceto banheiro
público), preparo o café da manhã
para nós e minha filha. A louça dessa
refeição fica por conta dele.
[ Nos finais de semana e feriados, zepierre, além
de arrumar o quarto, também prepara o café
da manhã].
Em seguida
ele sai para o trabalho, só retornando à
noite. Por duas vezes, no mínimo, nos dias
úteis, vamos juntos ao clube, onde realizamos
exercícios aeróbicos e um pouco de
musculação. No trabalho ele tem a
ordem de me telefonar pelo menos uma vez durante
o dia. Se não estou em casa, deixa um recado
na secretária eletrônica, e me procura
no celular. Conta algumas de suas atividades naquele
dia e diz alguma frase que mostre sua submissão
a mim. No final do dia, ao voltar para casa, também
me telefona para saber se tenho alguma instrução
específica que ele precise realizar antes
de chegar em casa. Desse modo mantenho um controle
muito próximo, diário. E é
claro que telefono a ele de modo incerto, para marcar
minha presença constante, muitas vezes ordenando
que vá ao banheiro e se masturbe, sem gozar.
Algumas vezes, especialmente quando ele tem alguma
reunião noturna, ou um evento especial em
seu trabalho diurno, mando que ele vá trabalhar
vestindo alguma calcinha de minha coleção,
ou mesmo seu cinto de castidade de couro. Essas
providências sempre o mantém ligado
à sua Dona, e são excitantes para
nós dois.
Chegando
em casa, à noite, e minha filha não
estando, zepierre toma um banho, e permanece sempre
nu, ou, quando a temperatura está mais fria,
mantém os genitais à mostra. Devo
ressaltar que a cada 15 dias, ele faz a depilação
do saco e da região perianal, alem de aparar
os pêlos pubeanos, que só são
raspados totalmente por ocasião dos encontros
com outras Dominadoras.
Cuida
do jantar e da louça, e depois, em geral,
vai ao computador da manutenção da
homepage. [A exceção ocorre
quando precisa completar algum trabalho profissional
em casa, geralmente recorrendo ao computador].
Fica trabalhando
nisso, e/ou servindo minhas necessidades, geralmente
massageando meus pés ou sendo usado como
tapete enquanto falo ao telefone, leio ou trabalho
no computador.
Por volta
das 23 horas determino que vamos dormir. Faço
uso do banheiro sempre antes dele. No inverno, nesse
tempo, ele deita-se no meu lado da cama ( dormimos
em cama de casal) para aquecer o leito. Nessa função,
ele também é instruído a se
masturbar, sempre sem poder gozar, para facilitar
a produção de calor e aquecer melhor
meu lugar na cama. No verão dorme inteiramente
nu, e apenas com uma camiseta nos dias mais frios.
Nossos
finais de semana começam na 6ª feira. Se
não saímos para programas SM ou vanila,
zepierre sabe que haverá cenas, de punição
e/ou treinamento. Em tais sessões coloco
roupas de fetiche, e ele sua coleira, algemas e
tornozeleiras de couro. Posso ou não definir
que use o "cachê-sex" ou seu arreio de escravo.
Confessa eventuais erros ou mau comportamento que
tenha tido durante a semana, e eu defino os castigos
a serem administrados. Os treinamentos são
mais específicos - treinamento anal, alvo
para treinamento de minhas habilidades com o chicote,
treinamento de excitação prolongada
(esse tipo tem, geralmente, a duração
de todo o final de semana ou até de 7 a 10
dias), e outros. Algumas vezes utilizo jogos para
que as ações SM sejam definidas pelo
acaso. Tenho um jogo que utiliza dados (está
em minha HP na seção correspondente),
e um interessante jogo no computador, que ele está
adaptando para colocar na HP. Esses jogos permitem
que os castigos sejam escolhidos ao acaso.
Nas compras
que geralmente efetuamos aos sábados, após
os exercícios no clube, zepierre está
sempre usando algum item que lembra sua condição
de submisso, sejam as calcinhas que escolho, o "caché-sex",
o cinto de castidade, o "sutiã de tachinhas"
ou até mesmo um "plug" anal. Aos sábados
à noite, quando em reuniões "vanila"
com amigos não SM [geralmente encontros
com grupos musicais], zepierre também
usa, escondidos pela roupa comum, tais "adereços".
Os domingos
geralmente são reservados para encontros
com amigos ou familiares, e/ou para curtirmos o
clube, um cinema, teatro, etc. Quando ficamos em
casa, o comportamento adotado é o D/s SM
já descrito.
Algumas regras comportamentais básicas que
defini para zepierre:
1. As
regras de etiqueta que definem um "cavalheiro" nas
relações com as mulheres em geral,
em quaisquer circunstâncias.
2. Nunca
usar açúcar em bebidas em geral, incluindo
café.
3. Em
reuniões sociais, bebidas alcoólicas
até duas doses (destiladas), ou dois copos
(fermentadas). Depois somente com minha autorização,
que deve ser solicitada.
4. Em
casa, como já foi mencionado, os genitais
devem estar sempre expostos e adequadamente depilados.
Urinar sempre sentado, exceto em banheiros públicos.
5. Em
reuniões D/s SM, sentar-se sempre em nivel
inferior à(s) Dominadora(s), exceto quando
eu der ordem contrária. Nessa ocasiões
somente dirigir a palavra à(s) Dominadora(s),
quando tiver autorização explícita,
e nunca cortar a palavra feminina, nem comandar
a conversação, salvo com meu consentimento.
6. Sexo
somente sob meu comando explícito, inclusive
quanto à penetração e à
ejaculação. Masturbação
terminantemente proibida, exceto quando sob meu
comando. Manter-se em ereção sempre
que comandado, em quaisquer circunstâncias.
Essas
são as regras básicas gerais. Outras
existem, mas são mais específicas
e dependerão das circunstâncias de
momento.
É
claro que existem ocasiões onde nosso comportamento
D/s é menos explícito, ou ganha importância
não primordial. Isso ocorre em situações
tais como as provocadas por eventos externos a nós
- preocupações profissionais ou administrativas
ocasionais, eventuais doenças próprias
ou na família, problemas sérios com
membros da família - ou nos finais de semana
e feriados que passamos com familiares e/ou amigos
"não engajados".
CONSIDERAÇÕES FINAIS :
Nas decisões
de administração doméstica,
aplicações financeiras, relacionamento
com irmãos e filhos (meus e dele) os assuntos
são discutidos como em qualquer casal. As
decisões em geral são tomadas em conjunto,
num consenso. Quando não se obtém
tal consenso nesses casos, o que tem sido muito
raro, a decisão final é minha.
Hoje procuramos
divulgar essa nossa experiência, como algo
concreto que poderá ser útil a quem
se interessar por tais temas. Daí a construção
de uma home page (www.helgavany.org),
onde são mostradas as experiências
que vivemos no mundo D/s SM. E também as
que compartilharmos com amigas e amigos que têm
os mesmos fetiches.
O criador
deste "Desejo Secreto", em e-mail privado, fez algumas
considerações em relação
à vivência que tenho com zepierre,
correlacionando-a como uma utopia possível.
E o enfoque, digamos, "filosófico" de nosso
estilo de vida ficou muito bem explicitado de maneira
clara, límpida, com as seguintes palavras
de Lord Conrad: "A utopia é sonho, sim, mas
o sonho que move o homem a fazer do seu cotidiano
algo melhor, mais justo, mais humano, mais solidário.
A utopia não é futuro, mas presente
... Isso, essa forma de encarar o presente, mais
que construir cotidianamente a utopia, é
vivê-la intensamente" (grifo meu).
São Paulo, janeiro de 2001