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Sabemos que a sexualidade humana é humana na
medida em que nos afasta da função da
reprodução. Iidentificamos o prazer sexual
com este afastamento - quanto menos animal, mais prazer.
Um desses afastamentos nos interessa particularmente:
a capacidade de erotizar o planeta.
Só nós humanos podemos fazer isto, e apenas
dois estilos de erotismo o fazem de maneira sistemática
e consciente: o Romantismo e o Sadomasoquismo.
Senão, vejamos.
Quando o romântico recolhe no alto do morro uma
flor para sua amada, empresta àquela flor o poder
de falar por seu amor. Quando a amada leva a flor consigo,
a deposita dentro de um livro de cabeceira, olha lânguida
para ela antes de dormir, imantou a flor com o seu amor,
com o seu amado; ou ainda, recebeu e aceitou a simbologia
que o amado inventou. O casal foi capaz de extravasar
seu amor, seus desejos, seu erotismo para o resto do
planeta, para os objetos - qualquer objeto: roupas,
presentes de todos os tipos, o guardanapo do restaurante
onde ele/a me disse "sim". Tudo está
à disposição e é utilizado
para representar, expandir, re-significar o amor e o
desejo do casal.
Ao contrario do romantismo, no sadomasoquismo o uso
de objetos variados é portador de um certo preconceito,
principalmente pela falta de conhecimento de sua função
(e diga-se de passagem que por vezes o preconceito assalta
inclusive os praticantes do bdsm).
Mas o que ocorre aqui é exatamente a mesma coisa
que ocorre com o romantismo. Ao penetrar sua parceira
com um objeto comprado em um sex-shop (eu particularmente
prefiro adquirir estes brinquedinhos no supermercado
da esquina), ao comprar e utilizar um chicotinho, ao
utilizar lenços ou cordas ou fios para amarrar
o parceiro.
Vis a vis à pratica de ser amarrada/o, de apanhar
com chicote ou palmatória, de ser penetrada por
um socador de caipirinha. Ambos, senhor/a e escrava/o
estão erotizando o planeta à sua volta,
seus afetos, seus desejos. Seu tesão agora se
espalha pelos objetos da cena, da casa, do planeta.
Uma/um boa/m escrava/o se excita ao entrar no supermercado
onde buscou brinquedinhos com seu/sua dono/a. Um/a bom/a
senhor/a idem. Os amantes trocam olhares lascivos ao
enxergar um destes objetos quando estão andando
pela rua.
Se isto não é visto assim, é graças
à duas confusões teóricas encontradiças
nas ciências humanas - na psicologia e na economia.
Na psicologia, desenvolveu-se a noção
de fetiche, advinda da psicanálise. Ocorre que
este conceito significa a substituição
do objeto erótico pelo objeto, digamos, inanimado.
Se eu gosto de calcinhas de mulher ao invés
da mulher mesma, então estou fetichizando (a
palavra vem de feitiço, ou seja imantar as coisas
das propriedades que elas não tem). Vai daí
que se confundiu a propriedade humana de humanizar o
mundo, com a patologia de substituir o mundo humano
pelo mundo das coisas.
E na economia, especificamente na economia política,
Marx importou a mesma noção para denunciar
a alienação da mercadoria, onde os homens
passam a idolatrar os bens, outra vez, no lugar
das pessoas.
Com isto, infelizmente, perdemos a possibilidade de
admirar este feito maravilhoso da consciência
humana - a capacidade de abranger o mundo com nossos
sentimentos, de emprestar às coisas o nosso modo
de ver e de sentir. Por isto o romântico é
ridicularizado e o sado-masoquista execrado quando usa
objetos para demonstrar, simbolizar, mimetizar o seu
amor, o seu desejo, o seu tesão. Mas se a consciência
execra a pratica, o corpo a sacramenta, as glândulas
reagem, e os mamilos apontam da mesma forma quando uma
mulher romântica enxerga uma flor ressecada ou
quando uma escrava acaricia um chicote.
Eis uma das boas razões pelas quais romantismo
e sadomasoquismo são modos tão intensos
de amar, tão apaixonantes, tão radicais:
Ambos tem a propriedade de vestir o planeta com o seu
amor, de colocar o mundo a serviço de seus sentimentos,
de exercer com plenitude o que os humanos temos de mais
humano.
Sádico
sadico@uol.com.br
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